Divina desumanidade
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Divina desumanidade

Ou: Je Suis Charlie - em três hipóteses

Edison Veiga

08 Janeiro 2015 | 00h01

Foto: Reprodução

Imagem: Reprodução

Hipótese 1

Assembleia extraordinária em algum lugar chamado Céu. Na gigantesca mesa, o Deus principal de cada religião politeísta e o Deus-Deus de cada religião monoteísta. Uma cadeira vazia representa o deus dos ateus – que tem seu nome, deus, grafado assim, em caixa-baixa na plaquetinha de identificação sobre a mesa.

– A que ponto nossos seguidores chegaram? – diz um Deus, entre cabisbaixo, atônito e descrente no futuro da humanidade.

– Pois é… A que ponto? E o pior é que isso não é de hoje, meu caro… – completa outro Deus, coçando a barba. – Lembra daquelas torres enormes lá em, como se chama mesmo aquela cidade bacana lá nos Estados Unidos para onde a brasileirada corre sempre que pode?

– Ora, ora… Não culpem apenas os que professam a minha fé. Vamos fazer um exercício de memória, meus caros, afinal, nós existimos desde antes do Universo, ou do Multiverso, ou seja lá qual a teoria que esteja em voga hoje – provoca um terceiro Deus.

– Você está certo, meu chapa. Vamos fazer a lista aí: Tribunal da Santa Inquisição, Cruzadas, Noite de São Bartolomeu… E tome etc. A lista é imensa, a lista é infinita, a maldade humana não tem nem como medir.

– O pior, meus queridos, o pior de tudo isso é que eles usam nossos nomes em vão. Como fica nossa imagem? Nós que fomos inventados justamente para disseminar o amor, a paz, a fraternidade universal…

Hipótese 2

Na verdade todos os deuses que existem – também aqueles que não existem, porque há os que não acreditam – são um único ser superior: Deus. Então ele não precisa se reunir com ninguém para lamentar os últimos acontecimentos.

Mas Deus está triste. A gastrite voltou a atacar. A noite está sendo de uma terrível insônia. Ele não sabe se é melhor apertar um ALT F4 e resetar a humanidade de uma vez, deletar tudo para começar de novo, ou se vale a pena dar outra chance. Mais uma. Pela enésima vez – a piedade divina é mesmo um troço lindamente difícil de entender.

– Onde foi que eu errei? Onde foi que eu errei? – pergunta Deus ao espelho.

Na falta de uma resposta, no silêncio que nem um eco tem para devolver uma voz, Deus fica em dúvida se o erro foi só na parte do livre-arbítrio ou na totalidade do projeto humano.

Hipótese 3

Não há Deus.

A culpa é toda do ser humano, esta criatura que não sabe brincar.

Notícias relacionadas