Com R$ 27 mi do BNDES, PUC-SP deve comemorar 70 anos sob reforma
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Com R$ 27 mi do BNDES, PUC-SP deve comemorar 70 anos sob reforma

Tradicional instituição de ensino tem neste ano, pela primeira vez desde os anos 1980, balanço anual financeiro positivo

Edison Veiga

12 Março 2016 | 16h00

Foto: Sergio Castro/ Estadão

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Em parceria com VICTOR VIEIRA

No ano em que completa 70 anos de fundação, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) tem motivos para comemorar. Pela primeira vez desde os anos 1980, o balanço anual – ainda em fase de auditoria – deve ser positivo, ou seja, a soma dos ativos da instituição é maior do que as dívidas. Além disso, graças a empréstimos de R$ 27 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), obras estão previstas nos câmpus Monte Alegre, Marquês de Paranaguá e Sorocaba. Devem começar ainda neste semestre, conforme planeja José Rodolpho Perazzolo, secretário executivo da Fundação São Paulo, mantenedora da universidade.

O pacote de melhorias inclui pintura, adequações de acessibilidade, 24 salas de aula inteligentes – equipadas com lousa digital –, reforma de auditórios e renovação de equipamentos de informática. Em Sorocaba, o Hospital Santa Lucinda, gerido pela PUC, será ampliado em 16 leitos – atualmente são 130.
De acordo com Perazzolo, uma segunda fase de obras, prevista para 2017, ainda será discutida internamente. “O câmpus Monte Alegre deve ganhar nova entrada e nova praça de alimentação”, afirma. “Também pretendemos transformar o bosque em um local mais agradável.”

O balanço financeiro anual que deve ser publicado em março também terá boas notícias, conforme antecipa o secretário executivo. “Até o ano passado, o sufoco era maior porque as dívidas eram maiores do que os ativos”, comenta. Com o alívio de quem vê os resultados de 10 anos de administração, ele afirma que não estão previstos novos cortes na instituição. “Existe um enxugamento natural, mas nada drástico como foi necessário fazer em 2005. Hoje, a universidade está, aos poucos, retomando seu funcionamento normal”, avalia.

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Vocação. Ao longo das suas sete décadas, a PUC-SP posicionou-se ao seu modo entre as grandes instituições de ensino de São Paulo. “Nosso diferencial é a preocupação social aliada à excelência acadêmica”, resume a reitora, Anna Maria Marques Cintra. “O aspecto comunitário está ligado à nossa missão institucional”, completa Jarbas Vargas Nascimento, pró-reitor de Cultura e Relações Comunitárias. “Fazemos um trabalho de acompanhamento psicopedagógico e social, um trabalho de inclusão dos alunos. É um diferencial, no sentido de que acolhemos estudantes de diversas situações.”

Com o aumento das faculdades privadas, a concorrência é analisada pela reitoria. “O crescimento desse mercado é uma coisa natural e acho muito bom para o País”, comenta Anna.

Mas nem tudo são boas notícias. No Plano de Desenvolvimento Institucional publicado no ano passado, a instituição prevê o fechamento, até 2019, de 1,3 mil vagas de graduação. “Discutimos muito a questão da aceitação do mercado”, explica Anna. “Não adianta ficarmos insistindo em cursos em que não há procura. Um exemplo é a graduação de Física. Acho uma pena. Física é maravilhosa. Mas manter uma turma com dois ou três alunos é inviável para uma instituição”. Na conta da PUC-SP, desde 2013 é preciso um mínimo de 20 alunos para abrir uma turma de graduação – se for meio período. Para um curso integral, o número mínimo de matriculados tem de ser de 25. “Não há outra saída”, diz a reitora.

Por outro lado, outras carreiras “vão bem” na avaliação da reitoria. “Engenharia, por exemplo. Já temos quatro modalidades e pretendemos contar com mais uma. E Medicina, no câmpus de Sorocaba, já solicitamos ao Ministério da Educação a autorização para aumentarmos o número de vagas”, diz ela.

Terceira colocada na eleição para o posto em 2012, Anna foi a nomeada pelo cardeal arcebispo de São Paulo, d. Odilo Pedro Scherer, grão chanceler da universidade, causando polêmica e descontentamento de muitos alunos – houve greve e afastamento temporário da reitora. Ela acredita que a cisma foi superada. “Isso foi acomodado. Até porque a Justiça esclareceu a questão e não há mais problemas”, afirma.

A interferência da Igreja Católica é vista pelos acadêmicos da PUC-SP como algo natural. “Há uma preocupação de respeito aos princípios católicos. Isto está no nosso estatuto”, ressalta Anna. No ano passado, a universidade esteve no centro de uma polêmica por conta da cátedra Foucault – uma instância acadêmica que seria criada, destinada a fomentar o debate em torno do filósofo Michel Foucault (1926-1984), conhecido por suas críticas às instituições sociais, entre elas a Igreja Católica. “É uma questão ainda em andamento”, resume a reitora.

A ligação umbilical com a Igreja nem sempre significou retrocesso. Durante o regime militar, a PUC-SP foi um abrigo para professores e estudantes ligados a movimentos de esquerda. Na década de 1970, contratou diversos acadêmicos que haviam sido aposentados compulsoriamente de instituições públicas, como Florestan Fernandes (1920-1995) e Octavio Ianni (1926-2004). O Tuca, o Teatro da PUC – que, no ano passado, comemorou 50 anos – também foi um dos principais locais de manifestações políticas durante a ditadura. O espaço recebia reuniões da União Nacional dos Estudantes (UNE) e foi polo de discussão da intelectualidade brasileira.

São episódios que enchem de orgulho os membros da instituição. E devem ser muito lembrados ao longo do ano. A abertura oficial das comemorações será no dia 22 de março, com missa presidida pelo cardeal arcebispo de São Paulo. “Vamos lançar uma coletânea de pequenos livros com biografias de personalidades importantes para a história da universidade”, conta Anna. Nadir Gouvêa Kfouri (1913-2011), primeira mulher a ser reitora de uma universidade católica no mundo, é uma das homenageadas. E ainda não está definido, mas algum evento comemorativo deve ser feito em 22 de agosto, data da fundação.

“Temos orgulho de nossa história e isso é importante”, comenta Antonio Manzatto, assessor de Assuntos Internacionais e Institucionais da PUC-SP. “Mas também temos orgulho de nosso futuro. A PUC é uma jovem senhora de 70 anos, com muitas possibilidades pela frente.”

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Foto: Sergio Castro/ Estadão