‘Batismo’ de prédios é dominado por estrangeirismos
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‘Batismo’ de prédios é dominado por estrangeirismos

Nos últimos cinco anos, pela primeira vez, mais edifícios foram lançados com nomes em inglês do que em português na cidade de São Paulo

Edison Veiga

20 Novembro 2016 | 05h00

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Em parceria com DANIEL BRAMATTI

Park. Home. Club. Garden. Top. De Edifício Elite Free and Flex a Mix Aricanduva Strip Center, expressões em inglês dominam os lançamentos imobiliários em São Paulo. Na soma dos edifícios construídos entre 2011 e 2015, pela primeira vez os batismos no idioma bretão superaram os em português puro e castiço – o placar ficou em 38% a 32%.

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Na média, com poucas oscilações, apenas um terço dos nomes de condomínios construídos nos últimos 30 anos não contém estrangeirismos. Em 50% dos casos, a nomenclatura tem termos em inglês, italiano ou francês. Outros 18% se referem a outros idiomas ou são neutros – reproduzem nomes de pessoas ou cidades, por exemplo.

O Estado analisou os nomes de todos os edifícios lançados em São Paulo desde 1985, que totalizam cerca de 10,4 mil unidades. A lista está em um banco de dados da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), que foi enriquecido com referências geográficas pelo Centro de Estudos da Metrópole, instituição de pesquisa ligada à USP e ao Cebrap.

Além de revelar a proliferação do inglês nos condomínios paulistanos, os dados mostram a retração do italiano e do francês, idiomas que tiveram seu auge no início dos anos 2000.

“Pensamos no nome do empreendimento de acordo com o tipo de produto que queremos lançar no mercado”, disse o gerente de Marketing da incorporadora Paz Realty, Alex Golovanevsky. Entre os exemplos da empresa está o Mix Aricanduva Strip Center, de 2010 – com todas as unidades vendidas. “O ‘mix’ é por causa do conceito de edifício misto, residencial e comercial. O ‘strip’ é para dar um ar mais sofisticado”, explicou Golovanevsky. Cyrela e Brookfield, duas das gigantes do mercado imobiliário paulistano, não quiseram explicar seus critérios para o batismo de prédios.

O uso predominante de estrangeirismos não se verifica nos Estados Unidos e em países da Europa. Mas também há exemplos por lá. Em 2011, o jornal The New York Times publicou uma reportagem sobre o uso dos nomes de prédios como “isca” para fisgar compradores em Manhattan. E citou exemplos que soavam como algo “estrangeiro em um bom sentido”: os edifícios Touraine e El Dorado.

Sofisma. Em Alto de Pinheiros, na zona oeste da cidade, dois condomínios “irmãos” têm o nome English Style Condominium – um é o edifício Ana Paula, o outro o Mariana. “A explicação é que esses prédios foram construídos no estilo europeu”, resumiu o zelador de um deles, Luiz Menezes. A menos de cinco quilômetros dali, em Pinheiros, o Miami Top fica quase na frente do Miami Flower. “Não tenho a menor ideia do porquê desses nomes”, riu o zelador Lenecir Bento de Paiva. “Mas acho que tem morador daqui que costuma passar as férias em Miami.”

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Prova de que criatividade nem sempre é um predicado positivo são os nomes que se aproximam do bizarro. Na Vila Nova Conceição, por exemplo, existe o Asas de Butterfly. “É estranho uma só palavra em inglês, não é?”, admitiu o zelador Severino Nascimento Barbosa. “Pior ainda é na hora de falar o nome por telefone: sempre preciso soletrar que tem dois tes e um ípsilon.”

E há também as tentativas malsucedidas de glamourização. Sophistic Campo Belo, no bairro homônimo da zona sul, por exemplo. A ideia parece ter sido associar o condomínio a sofisticação. Entretanto, sofisticado é “sophisticated”, enquanto “sophistic” significa sofista – ou seja, falacioso, aquele que utiliza argumentos aparentemente lógicos para induzir ao erro. “Não sei nada sobre o nome. Acredito que nem a síndica saiba. Mas, agora que você está falando, vou procurar pesquisar”, disse o zelador Alex Augusto, funcionário há cinco anos.

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