As marcas dos jesuítas em São Paulo
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As marcas dos jesuítas em São Paulo

Edison Veiga

27 Março 2013 | 16h30

Ordem que ganhou evidência com a eleição do papa Francisco participou da fundação da cidade e nela mantém instituições até hoje

A mais antiga instituição europeia a chegar à área que se tornaria São Paulo, a Companhia de Jesus está em evidência mundial desde a eleição, no dia 13, do primeiro papa latino-americano. Francisco, o argentino Jorge Mario Bergoglio, é o primeiro jesuíta a se tornar líder da Igreja.

Em São Paulo, a maior ordem da Igreja Católica, com cerca de 18 mil integrantes no mundo, tem 68 religiosos. Em 1553, o primeiro grupo de jesuítas chegava ao Planalto de Piratininga. Eram cerca de 20. A subida do litoral era muito difícil. Para serem vencidos alguns trechos, os religiosos tinham de engatinhar, conforme conta Hernâni Donato em seu livro Pateo do Collegio: Coração de São Paulo (Edições Loyola, 280 páginas, 2008). Padre José de Anchieta escreveu que aquele caminho era “o pior que há no mundo”, conforme relata Roberto Pompeu de Toledo, em A Capital da Solidão (Editora Objetiva, 558 páginas, 2003).

Para a história, a missa celebrada em 25 de janeiro de 1554, dia de São Paulo, marca a fundação da cidade. Ali no pátio já havia uma rudimentar capela, uma escola e uma cabana que servia de abrigo aos jesuítas, entre eles Anchieta e padre Manoel da Nóbrega, o primeiro religioso da ordem a chegar ao Brasil. Mais de 459 anos mais tarde, depois de idas e vindas causadas por duas expulsões, a Companhia de Jesus segue presente na cidade. A ordem administra dois colégios, uma faculdade, um museu, uma biblioteca, uma editora de livros e duas igrejas – a do Pátio do Colégio, no centro, e a Paróquia São Luís Gonzaga, na Avenida Paulista (foto acima) –, além de algumas obras sociais. Historicamente, os jesuítas também têm ligação com outras duas igrejas paulistanas, a Paróquia de São Gonçalo, no centro, e a capela de São Miguel Arcanjo, na zona leste.

Vocação. “Interessante notar que os jesuítas aqui chegaram e fundaram um colégio. E hoje continuam presentes com instituições de ensino na cidade”, comenta o sacerdote jesuíta Eduardo Henriques, diretor geral do colégio São Luís (foto abaixo). Ali, na Avenida Paulista, estudam 2,5 mil alunos. No São Francisco Xavier, no Ipiranga, há outros 1,2 mil. Ainda há, na Liberdade, um câmpus da Fundação Educacional Inaciana (FEI), com curso superior.

Mas a melhor maneira para entender a presença jesuíta em São Paulo é conhecer o museu que funciona no Pátio do Colégio (ingressos a R$ 6). Ali destaca-se uma maquete da São Paulo na época da fundação. Aos fundos, é possível conhecer a parede mais antiga de São Paulo (confira abaixo a galeria de imagens). “Data de 1585 e foi o que sobrou de uma ampliação do colégio”, explica a historiadora Carla Galdeano, coordenadora do museu. Na cripta, pode-se ver os alicerces de uma das tantas reconstruções do local, ocorrida em 1680. “É um de nossos maiores tesouros”, comenta Carla.

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CRONOLOGIA

Expulsões e retornos

1540: A Companhia de Jesus tem sua fundação aprovada.
1553: Religiosos migram para o planalto paulista. Um ano depois, celebram a missa que marca a fundação de São Paulo.
1640: Por desavenças com os paulistas, que queriam escravizar os índios, os jesuítas são expulsos. Eles só voltam em 1653.
1759: Os jesuítas são banidos de todo o território brasileiro.
1773: Vaticano extingue a Ordem, que só é restaurada em 1814.
1843: Ordem volta ao Brasil, por Santa Catarina. Vinte e quatro anos depois, eles retornam às terras paulistas, primeiramente em Itu.

Pátio do Colégio conta a história de 459 anos da cidade

Construção atual é a quarta versão da igreja feita pelos jesuítas na região central e abriga museu e biblioteca

“O maior marco, o lugar que traz mais visibilidade aos jesuítas em São Paulo é, sem dúvida, o Pátio do Colégio”, comenta o padre Carlos Alberto Contieri (foto acima), diretor do complexo – igreja, museu e biblioteca. “Afinal, é o ponto oficial da fundação da cidade.”

Ele está certo. Mas o Pátio que existe hoje não passa de uma invenção, de uma tentativa de recriação da história. A construção atual é uma réplica. E, na opinião de especialistas, como o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, feita de forma fantasiosa, com estrutura de concreto armado e interiores diferentes do original.

Iniciada com as comemorações do IV Centenário, em 1954, e inaugurada 25 anos depois, o que há hoje no pátio é a quarta versão da igreja jesuíta. Da primeira capela, poucos registros ficaram. Tratava-se de algo muito rudimentar, coberta com sapé. Media 4,48 m por 8,20 m.

Ficou pronta em 1557 a segunda construção, já de taipa. A terceira, cujas obras iniciaram em 1667, levou 16 anos. Em 1759, os 22 jesuítas que viviam em São Paulo foram expulsos, mandados para Portugal.

Na noite de 13 para 14 de março de 1896, boa parte da construção desabou durante um temporal. “Nessa época, os jesuítas já tinham retornado a São Paulo. Viram a queda e nada puderam fazer”, comenta a historiadora Carla Galdeano, coordenadora do museu do Pátio do Colégio.

Em 1954, nas comemorações do IV Centenário, conseguiram que fosse colocada ali a pedra fundamental do novo Pátio do Colégio. Ele foi reinaugurado nos anos 1970. “Mas, de papel passado mesmo, a prefeitura só nos devolveu o local em 1986”, conta o padre Contieri.

PRESENÇA DA ORDEM NA CIDADE

Pátio do Colégio: Marco da fundação de São Paulo, o complexo tem igreja, museu e biblioteca.
Paróquia São Luís Gonzaga: Na Avenida Paulista. Foi construída em 1932, pelos jesuítas.
Colégio São Luís: Criado em Itu em 1867, foi transferido para a capital em 1918.
Colégio São Francisco Xavier: Foi fundado há 85 anos com o objetivo, na época, de atender à comunidade imigrante japonesa.
Edições Loyola: Criada há meio século, publica obras religiosas e de temas como saúde, filosofia e educação.
Paróquia de São Gonçalo: A igreja não foi construída por jesuítas, mas passou a ser administrada por eles após o retorno a São Paulo, em 1872. Há quatro anos, a paróquia foi cedida à arquidiocese.
Capela de São Miguel Paulista: Erguida por jesuítas e inaugurada em 1622, é considerada a igreja de construção original mais antiga de São Paulo. Foi administrada pelos jesuítas até a extinção da ordem, no século 18.
Fundação Educacional Inaciana (FEI): Um dos campi da instituição com sede em São Bernardo do Campo fica no bairro da Liberdade.

Tema da coluna veiculada pela rádio Estadão em 27 de março de 2013