As araras-azuis-de-lear do Zoo de SP
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As araras-azuis-de-lear do Zoo de SP

Em artigo, bióloga dá informações sobre a espécie; filhote nasceu neste mês em cativeiro

Edison Veiga

24 Abril 2015 | 13h31

Foto: Paulo Gil/ Divulgação

Foto: Paulo Gil/ Divulgação


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Por Fernanda Vaz*

A arara-azul-de-lear, Anodorhynchus leari, é uma espécie brasileira endêmica de uma restrita área na caatinga do nordeste da Bahia cuja distribuição geográfica atual compreende os municípios de Canudos, Jeremoabo, Euclides da Cunha, Paulo Afonso, Sento Sé, Campo Formoso, Monte Santo e Santa Brígida. Vive em bandos e utiliza os paredões rochosos de arenito-calcário presentes na região para dormitório e reprodução.

Esta espécie se reproduz apenas nas cavidades naturais dos paredões sendo a época reprodutiva em setembro ou outubro, finalizando em abril, quando os filhotes saem dos ninhos. O principal item alimentar é o coco da palmeira licuri, Syagrus coronata, sendo que manchas de licuris estão espalhadas em alguns municípios e são utilizadas como ponto de alimentação das aves. De acordo com estudos realizados, cada arara alimenta-se em média de 350 frutos de licuri por dia.

Foto: Paulo Gil/ Estadão

Foto: Paulo Gil/ Estadão

Pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação das Aves (Cemave) realizaram o último censo populacional em novembro de 2014 contabilizando 1294 indivíduos. De acordo com os critérios da União Internacional para Conservação da Natureza, a espécie é considerada em perigo de extinção e os principais problemas encontrados são a degradação do ambiente, falta de alimento e o tráfico de
animais.

Em novembro de 2013, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) aprovou o Programa de Cativeiro da Arara-Azul-de-Lear, que tem como objetivo estabelecer um plantel adequado em termos genéticos, demográficos, sanitário e comportamental para integrar um futuro programa de revigoramento populacional, especialmente na região do Boqueirão da Onça, onde são monitorados apenas dois exemplares da espécie.

A primeira reprodução da espécie em cativeiro ocorreu em 1986 nos Estados Unidos, e atualmente apenas duas instituições estrangeiras localizadas na Espanha e Catar continuam a reproduzir. O panorama atual em cativeiro necessita de atenção especial pois em 2013 o número de animais nascidos, de apenas cinco casais, é praticamente igual ao número de fundadores. Além disso, alguns fundadores em poucos anos estarão atingindo idade elevada, dificultando a reprodução. O objetivo atual do Programa de Cativeiro é a reprodução emergencial do maior número de indivíduos visando assegurar a variabilidade genética no futuro.

A Fundação Parque Zoológico de São Paulo recebeu o primeiro exemplar da espécie em 1986, permanecendo nesta Fundação por dez anos. A partir de 1996, novos exemplares foram recebidos e passaram a ser alojados em recintos fora da exposição ao público, sem registros de nascimentos.

Foto: Carlos Nader/ Divulgação

Foto: Carlos Nader/ Divulgação

A população atual é de quatro machos e oito fêmeas, sendo que desde 2013 alguns casais passaram a apresentar comportamento reprodutivo.

Com a intenção de aperfeiçoar o manejo em cativeiro, a Fundação construiu no Centro de Conservação da Fauna recintos para oferecer melhores condições de infraestrutura para os casais de arara-azul-de-lear, visando a sua reprodução ex-situ, como também, condições para manifestar todo o comportamento reprodutivo relacionado à espécie. Neste local, em parceria com o ICMBio/CEMAVE e os atuais
mantenedores da espécie, será realizado um grande agrupamento (flocking) de araras-azuis-de-lear em idade reprodutiva que estão em cativeiro no Brasil, favorecendo o comportamento de livre escolha do parceiro sexual.

O processo de livre escolha do casal é um dos pontos principais para que as aves tenham o estímulo para a reprodução em cativeiro. No entanto, um dos casais alojados na Fundação já apresenta tal comportamento e em 13 de abril de 2015 registramos o primeiro nascimento de arara-azul-de-lear em cativeiro no Hemisfério Sul. O sucesso deste nascimento é resultado dos esforços que a Fundação vem desenvolvendo há muito tempo pelo corpo técnico capacitado e preocupado com o bem-estar, manejo adequado, estudos comportamentais, alimentação balanceada e estado sanitário das aves.

paulo gil3

O pequeno filhote, ainda sem identificação do sexo, está recebendo cuidados especiais dia e noite com alimentação balanceada, controle de peso, registro comportamental e fotográfico e está sendo mantido em incubadora com temperatura e umidade controladas para assegurar seu bem-estar e garantir seu desenvolvimento. Este nascimento é um marco importante para a conservação pois se trata de uma espécie exclusivamente brasileira que nunca havia sido reproduzida no Brasil. Além disso, mostra que instituições nacionais possuem capacidade técnica para tal fato e isso deve ser estimulado pelos órgãos responsáveis para que espécies brasileiras sejam mantidas no seu país de origem.

* Fernanda Vaz é bióloga da Fundação Parque Zoológico de São Paulo