Arquiteto paulista descobre as trilhas de José de Anchieta
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Arquiteto paulista descobre as trilhas de José de Anchieta

Edison Veiga

08 Abril 2014 | 16h59

No fim dos anos 1970, professor da USP seguiu passos do mais recente santo brasileiro

FOTO: JF DIORIO/ ESTADÃO

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Hoje é relativamente fácil fazer a trilha conhecida como “do padre José de Anchieta”, que liga a Baixada Santista ao Planalto. Quarenta anos atrás, entretanto, o que se sabia era apenas que o sacerdote que acaba de ser canonizado havia vencido a Serra do Mar por um caminho às margens do Rio Perequê. Foi então que o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo calçou botas grossas de couro, montou um kit próprio para expedições e, empunhando facão de mateiro, foi a campo para recuperar esse pedaço da história.

“Estávamos em busca de vestígios da antiga trilha de Anchieta. Sabíamos que ele se guiava pelo rio, mas, no meio da mata fechada, isso significa ouvir o som das águas, já que quase sempre é impossível ter contato visual com elas”, recorda-se o arquiteto. Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, ele organizou as expedições com um grupo de cinco ou seis alunos e colegas.

Antes, já acumulava certa experiência em excursões do tipo. Entre 1966 e 1971, havia se embrenhado pela serra em busca do que restou do caminho conhecido como Calçada do Lorena, primeiro caminho pavimentado a ligar São Paulo e Santos, construído em 1792 – encontrou diversos vestígios perdidos e a pesquisa resultou em tese de doutorado e no livro Projeto Lorena, os caminhos do mar, publicado em 1975.

“Sabíamos que na época de Anchieta havia duas rotas para subir a Serra do Mar”, explica Toledo. “A que seguia o curso do Perequê e a que acompanhava o Rio Mogi. Esta última, entretanto, era evitada pelos brancos porque, no caminho, havia uma tribo de índios hostis.”

Disciplina. Foram dezenas de sábados em que Toledo e sua equipe passaram o dia no meio da mata. Saía cedo de casa e deixava o Fusca em uma clareira da mata. “Era meu estacionamento”, brinca. Retornava só ao anoitecer, depois de cerca de 10 horas de expedição.

Na mochila, levava um kit com garrafa d’água, sanduíches e até soro antiofídico – mas nunca houve qualquer problema com cobras. “A regra era caminhar por 1 hora e descansar por 10 minutos, com muita disciplina”, conta. Bichos no caminho? Insetos e, eventualmente, alguma preguiça.

Os vestígios da rota de Anchieta foram encontrados acompanhando o curso do Rio Perequê, em média a cerca de 30 metros de distância. “Aprendemos com um mateiro que, quando uma trilha é usada por muito tempo, o mato fica diferente, não cresce mais igual”, diz ele, revelando uma das artimanhas da busca. Para surpresa da equipe, também foram encontrados alguns resquícios de alvenaria. “Aí era uma festa”, relata Toledo.

Esses restos de construção não seriam da época de Anchieta, mas um pouco posteriores. Acredita-se que a trilha continuou sendo usada para transporte, em maior ou menor escala, até a criação de rotas mais apropriadas, como a Calçada do Lorena e, posteriormente, a ferrovia.

As expedições de Toledo foram fartamente documentadas por fotos – que ele mantém em seu arquivo. Algumas dessas imagens estão publicadas neste link.