Ano de crise motiva doações criativas
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Ano de crise motiva doações criativas

Com momento econômico, empresas usam meios alternativos para não deixar de contribuir

Edison Veiga

19 Dezembro 2015 | 16h00

Criatividade (contra a crise) e atenção a temas do momento (do ciclismo à sustentabilidade) inspiram as tendências do fazer o bem nesta época do ano. Muitas empresas substituíram as tradicionais “sacolinhas” – kits de insumos e presentes enviados a instituições – por outras formas de solidariedade.

É o caso da Liga Solidária. A ONG enfrenta dificuldades para captação de patrocínio para suas ações sociais, por conta da crise econômica. “Em nossas visitas a empresas, o discurso tem sido o mesmo: este ano é atípico e não há verba”, diz a gerente de captação de recursos da Liga, Ana Paula Garcia. “Então decidimos fazer desse problema uma solução e inventamos a ‘happy hour solidária’”.

Foto: Divulgação

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Partindo da premissa que boa parte das empresas realiza confraternizações de fim de ano, a ONG fez uma parceria com o restaurante Spazio Gastronômico. “Eles nos oferecem um preço especial, subsidiado, e nós ‘revendemos’ o evento para as empresas”, conta Ana Paula, afirmando que, por este formato, cerca de 50% do pago acaba sendo revertido para a Liga. Entre as companhias que aderiram está a Vivo Telefônica e o escritório Machado Meyer Advogados, entre outras.

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

Em paralelo, a instituição aposta em ações para aqueles que não resistem às boas compras natalinas. Até o dia 24, funciona na badalada Rua Oscar Freire o Mercadinho Chic!, uma feira com 70 expositores em que parte das vendas é beneficente às mais de 10 mil pessoas em situação de alta vulnerabilidade social atendidas pelos projetos da Liga.

Em tempos difíceis, parcerias parecem ser a solução para contornar a conta no vermelho. A Associação de Assistência à Criança Deficiente, por exemplo, tem um acordo com a empresa de alimentos Emulzint. Parte das vendas do produto Pão Amigo é revertida para a instituição. A joalheria Tiffany protagoniza outro caso de filantropia-parceira: em duas datas específicas nas últimas semanas, 5% do total das vendas foi repassado para a ONG Doutores da Alegria e duas organizações do Hospital Israelita Albert Einstein: AmigoH e Voluntariado.

Também há empresas que deixam caixinhas para que clientes e funcionários possam depositar notas fiscais sem CPF – e doar o que seria devolvido por meio da Nota Fiscal Paulista para uma instituição parceira. O escritório Pinhão & Koiffman Advogados instalou uma em sua copa, para ajudar o Projeto Arrastão. A iniciativa foi tomada no dia seguinte a uma visita à instituição, justamente para entregar as “sacolinhas” de Natal montadas pelos funcionários.

A União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social (Unibes) costuma realizar bazares com roupas usadas – arrecadadas mediante doação – para arrecadar fundos para suas ações sociais. Neste ano, um de seus tradicionais parceiros, a loja de sapatos Eurico, lançou mão de uma dupla de “embaixadores” – os atletas olímpicos Lucão e Jaque – para uma campanha. Já são 6 mil pares de sapatos conseguidos.

Desde 2013, em parceria com a Fundação Grupo Casino, o Instituto GPA realiza, em um dia de dezembro, uma ação de arrecadação de alimentos em todas as lojas do Pão de Açúcar, Extra e Assaí. Em média, são arrecadadas 800 toneladas de alimentos, que acabam beneficiando 1,6 milhão de pessoas.

Foto: Divulgação

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O já tradicional passeio ciclístico noturno mensal organizado pelo shopping Pátio Paulista também foi beneficente. Na última edição, cujo tema era justamente os enfeites natalinos, o valor total das inscrições (R$ 25 por pessoa) foi revertido para a compra de presentes, que serão entregues a crianças do Abrigo Reviver pelo mesmo papai noel do centro comercial.

“Ajudar ao próximo deve ser algo prazeroso e divertido e tem tudo a ver com o espírito natalino”, avalia a gerente de marketing do shopping, Cláudia Lima. “Por isso, criamos uma edição extra temática da nossa pedalada, para que as pessoas possam vivenciar nossa cidade decorada para a data e ainda praticar a solidariedade.”

No shopping D&D, a decoração natalina tem solidariedade no DNA. O centro comercial convidou nomes da arquitetura e da decoração para criarem 40 árvores de natal estilizadas. E botou as peças no leilão – revertendo a renda para as instituições ABC do Coração e Cruz Verde.

No pregão, realizado no fim do mês passado, foram arrematadas apenas 12 árvores, com lance mínimo de R$ 2,5 mil – no total, R$ 30 mil. “Mas agora estamos oferecendo as remanescentes para outras empresas, uma a uma”, conta o diretor geral do shopping, Angelo Derenze. “Mais importante que isso é a visibilidade que essas instituições ganham. E o fato de que tais ações podem criar uma ‘corrente do bem’”. Ele exemplifica: sensibilizado com a ideia, um empresário que tem loja no shopping já está planejando repassar a uma das instituições o excedente do produzido em sua indústria – da área de móveis.

Foto: Divulgação

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No último dia 15, a loja de brinquedos Ri Happy inaugurou uma brinquedoteca na favela da Vila Prudente. Duzentos itens foram doados ao Centro Cultural Vila Prudente, que atende a 120 crianças. A empresa pretende renovar acervo em todas as datas comemorativas, como Dia das Crianças e Natal – com doações de fornecedores e clientes.

Sustentabilidade. A crise econômica podia significar o cancelamento da tradicional festa de fim de ano da empresa de logística RV Ímola. Foi quando alguns funcionários perceberam que era grande o número de embalagens jogadas fora no dia a dia da firma. Então, passaram a reservar uma área grande nos fundos da empresa para armazenar todo esse material, antes descartado.

“Transportamos medicamentos, de modo geral. Tudo embalado com materiais muito nobres para a reciclagem. Hoje, mais de 80% disso é vendido para empresas de reciclagem”, conta o gestor de segurança, saúde e meio ambiente da companhia, Guilherme de Paula Nogueira. Como resultado, os funcionários arrecadaram R$ 30 mil e garantiram a festa de Natal, no último dia 18. Um caso de solidariedade interna – mas também solidariedade ao próprio meio ambiente.