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“Andei por essas aldeias…” (De uma carta do padre José de Anchieta, mais de 400 anos atrás, sobre o caminho através da Serra do Mar)

Edison Veiga

06 Abril 2014 | 07h47

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* Por Benedito Lima de Toledo
(publicado originalmente em 7 de maio de 1980, no Jornal da Tarde)

Há pouco mais de 400 anos (em 15 de novembro de 1579), o padre José de Anchieta escrevia carta ao Capitão Jerônimo Leitão dando conta da viagem que estava prestes a empreender rumo ao Cubatão. Nela começa por informar que “andei por essas aldeias negociando gente para a viagem”. Esse recrutamento era aparentemente exigência de Jerônimo Leitão para evitar que Anchieta viajasse desacompanhado. O missionário afirma que a canoa de Salvador Correa “bastava para me levar”, mas conta que Antônio Macedo conseguira reunir vinte mancebos “mas não pude acabar com eles que fossem senão por o Caminho Velho da Borda do Campo”.

Anchieta informa ainda que “faço conta de partir terça-feira com eles por água. E até sexta ou sábado ser no Cubatão com ajuda de N.Sr.”. A carta foi levada por Domingos de Pais com o pedido de “que nos mande canoas boas aos portos por onde irmos como para que lá esteja tudo prestes, porque esta gente não leva mais arcos e flechas”.

Como vemos, Anchieta fala em sua carta de um “Caminho Velho da Borda do Campo”. O caminho novo seria o mandado abrir em 1560 pelo padre Manoel da Nóbrega. Seu biógrafo, o padre Antônio Franco, informa que “por agencia de dois Irmãos nossos engenhosos, se abriu com grande trabalho este caminho, de que todos receberam grande segurança e proveito”. Este seria o “Caminho do Padre José”, pois provavelmente Anchieta seria um dos dois “Irmãos engenhosos”.

O engenheiro Guilherme Wendel, em trabalho apresentado no 10º. Congresso Brasileiro de Geografia (publicado em 1943), dá a seguinte interpretação para a carta de Anchieta: “Embarcando num porto perto de São Paulo, subiu pelo rio Grande e rio Pequeno, até certo ponto onde chegava ao caminho velho da Borda do Campo e donde continuou a viagem por terra atravessando o rio das Pedras até ao Alto da Serra, descendo esta, ou pelo vale do Perequê ou por alguma vereda, mais ou menos onde dois séculos depois foi construída a primeira estrada calçada”.

Quando o padre Fernão Cardim, visitador da Companhia, subiu a Piratininga, em 1585, conta que depois de viajar duas léguas por água e uma por terra foi pernoitar num abrigo “ao longo de um formoso rio de água doce que descia com grande ímpeto”. (Para o geógrafo Pasquale Petrone, professor da USP, esse rio seria o Perequê.)

No dia seguinte, caminhando até o meio-dia, o padre Cardim chegou ao cume, não sem grande esforço, porque “o caminho é tão íngreme que às vezes íamos pegando com as mãos”. Como todo viajante, o padre registrou a impressão que lhe causou a vista: “Chegando ao Paranapiacaba, lugar donde se vê o mar, descobrimos o mar largo quanto podíamos alcançar com a vista (…).”

Há cerca de dez anos, quando ocupava-me em localizar e balizar a “Calçada do Lorena” – aquela “estrada calçada” citada por Wendel – realizei várias expedições à serra, bem como a sobrevoei algumas vezes. Nos vôos baixos sobre a serra, pude notar que alguns caminhos dirigiam-se paralelamente à crista da serra rumo ao Perequê.

Percorrendo depois aquele caminho, observamos que ele cruza um regato onde há vestígios de ponte, de troncos. Daí para a frente, o mato toma conta do caminho, fechando-o em alguns trechos. Mas com certo trabalho é identificável, porque são visíveis os cortes, sob a vegetação, no morro. Também o próprio leito do caminho é identificável, mesmo tomado já por árvores de razoável porte. Depois de cruzar vários riachos, surge à frente o rio que desce com grande ímpeto, como nos fala o Fernão Cardim.

É curioso notar que quem segue pelo planalto sem enveredar pelo caminho, vai encontrar uma das paisagens mais belas da região: a conjunção de três afluentes formando o que se presume seja a “Grota do Perequê”, ponto de um caminho conhecido por “caminho do Monge”, certamente outra denominação do Caminho do Padre José”.

O trabalho minucioso e paciente de reabertura da trilha foi empreendido principalmente em 1976, com a colaboração de estudantes (hoje arquitetos) da FAU/USP. Foram feitas sucessivas excursões frequentemente prejudicadas pela neblina que subitamente se forma na serra, impedindo a identificação sequer do caminho de retorno. À falta de mapas, nossa referência gráfica eram fotos do levantamento aerofotogramático do Departamento de Geografia da USP. Auxiliou-nos muito a foto-interpretação realizada também por um professor da FAU/USP, que assinalou os cursos d’água e as trilhas naquelas fotos.

Dessa forma, foi possível ir reconstituindo o traçado do caminho, que ora se aproxima da calha do rio Perequê e ora dele se afasta. Em determinado ponto, abre-se à frente uma notável vista da baixada que se estende até o vale do rio Mogi.

Um dia, em 1976, na companhia de colegas, topamos com uma pequena construção de cal e pedra, de pequeno porte, cujo significado não foi possível esclarecer. Mas seguramente relacionava-se ao caminho. Um arqueólogo foi convidado a ir conhecer nosso achado, mas, pouco habituado a caminhadas, não teve disposição para ir além do início da descida (antes, é certo, havíamos caminhado muito, por uma trilha que tomamos erroneamente devido a obras que se realizavam na região). Fica, pois, essa referência importante a ser esclarecida, por tratar-se de uma obra de cantaria em caminho de terra.

Mais adiante, o caminho começa a bordejar com desnível que deve ser o mencionado pelo padre Simão de Vasconcellos, que à vista do precipício, confessa no seu estilo hiperbólico que “tremeram-me as carnes”.

Outro ponto interessante é saber onde ficaria o porto das Almadias, na Baixada. Quem vinha de Santos ou São Vicente, enveredava pelo rio Cubatão e subia o Perequê até aquele porto. Daí para frente tomava-se o “Caminho do Padre José”. Quando Wendel se ocupou do assunto, procedeu da seguinte forma:

“Para determinar a posição exata deste ponto, fui pelos rios Cubatão e Perequê acima, até esbarrar, a cerca de 1250 metros acima da barra deste, com um obstáculo: uma laje que atravessa o rio formando uma pequena cachoeira que impedia a navegação. Devia estar no porto de Almadias, De fato, encontrei na margem esquerda, pouco abaixo da laje, vestígios de antigas construções.”

Foi nesse local que Wendel encontrou o marco divisório, lavrado em pedra, que hoje se encontra no Museu do Ipiranga. Essa peça, de inestimável valor arqueológico, segundo Wendel seria um marco divisório de sesmarias.

Refazendo o itinerário de Wendel, percorri o rio Perequê em canoa, desde o rio Cubatão até onde foi possível navegar. Levou-nos um barqueiro que, naquela época, afirmava estar próximo dos 90 anos de idade e que sempre viveu na região. Atualmente um novo dado veio alterar profundamente o quadro descrito por Wendel: o polo industrial de Cubatão. Não foi possível ver vestígios das antigas construções. O barqueiro apontou-me os “lenheiros”, caminhos que conduziam até o início da serra e que eram utilizados por lenhadores e carvoeiros, no passado.

Há um ponto que pode ter sido o do porto das Almadias, onde a água é rara e se espraia como na descrição de Wendel. É aí que vem ter o caminho de que nos ocupamos. Nesse ponto há uma trilha, hoje prejudicada pela expansão da refinaria de Cubatão, que ligava o porto das Almadias com o início do “Caminho do Mar”, exatamente na localidade onde ficava antigamente a Capela de São Lázaro com seu pequeno cemitério anexo, ambos demolidos. A esse ponto vem ter ainda uma segunda trilha que, partindo da “estrada de troncos” no planalto, desce a serra de forma mais abrupta.

Frei Gaspar da Madre de Deus, que teria 77 anos quando a “Calçada do Lorena” foi inaugurada (1792), refere-se ao caminho antigo como “o pior talvez que tinha o mundo”, com a autoridade de quem o havia percorrido várias vezes e assistido a diversos reparos. Isso, mesmo “depois de se ter consertado a serra três vezes no dilatado curso da minha vida e sempre no mesmo estilo com pouca diferença”.

Um desses “consertos” deve ter sido realizado à época em que por ali subiu a bateria que se dirigia ao Iguatemi; outro é o realizado por Lobo Saldanha em 1781, com donativos das Câmaras de diversos municípios. Em novembro desse ano ele escrevia ao vice-rei dando conta das “infinitas pontes das mais duráveis madeiras” que executara no caminho. Todavia um sucessor seu afirma que em nove anos a estrada revertera a um “miserável estado”.

Frei Gaspar a descreve pouco antes da abertura da “Calçada do Lorena” como sendo “tão apertada que nos barrancos colaterais se viam sempre reguinhos abertos pelos cavaleiros que não podiam transitar sem irem tocando com os estribuos naqueles formidáveis paredões”. Isto evidencia que, antes mesmo da abertura da “Calçada”, já era intenso o trânsito de animais pela serra do Mar.

Não é de hoje que defendemos a ideia de que todos os caminhos da serra do Mar deveriam ser objeto de cuidadoso estudo, de forma a vir a integrar um amplo “Ecomuseu”. Nesses caminhos está boa parte da história de São Paulo, onde aparecem sempre surpresas. Por exemplo: sabe-se que já no planalto o primitivo caminho passava por Zanzalá, Caveiras e Botujuru (na língua dos nativos, “local onde sopra o vento”). O Botujuru ficava próximo à fazenda Bonilha, localizada nas cercanias do morro que tem esse nome até hoje. Esse morro era valiosa referência para fixar o rumo do viajante que, saído da mata, tinha as visuais livres da “Borda do Campo”. Até hoje essa perspectiva se mantém desobstruída.

Essa estrada poderia ser a continuação da “Calçada do Lorena” no planalto. Partindo nessa diretriz foi possível localizar uma estrada com dimensões semelhantes à “Calçada”, tendo sulcos profundos que revelam ter sido intensamente usada por veículos de rodas. Como se sabe, a “Estrada da Maioridade” foi aberta quando se tornou intenso o uso de veículos. A estrada do Botujuru, assim, é mais um importante item nessa longa história iniciada pelo apóstolo do Brasil.

* Benedito Lima de Toledo é arquiteto e historiador.