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A faixa que foi pintada duas vezes
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CIDADANIA

A faixa que foi pintada duas vezes

Parece ficção -- mas isso acaba de ocorrer em São Paulo

Edison Veiga

01 Abril 2015 | 16h58

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Era uma vez uns paulistanos que, vizinhos a um parque, acreditavam ser necessária a instalação de uma faixa de pedestres para que os cidadãos atravessassem a movimentada rua em frente ao tal parque. Não devem ser os únicos nessa situação, aliás. Não deve ser este o único ponto da cidade carente de uma simples faixa de pedestres.

Cansados de aguardar por uma resposta da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) – afinal, foram três anos de pedidos para lá – resolveram ousar. Conseguiram comprar a tinta especial com desconto numa loja do bairro – saiu tudo por uns R$ 200 – e marcaram a data. Oito de março de 2015 seria o histórico dia: o Parque das Corujas, ali na divisa entre as vilas Madalena e Beatriz, enfim, poderia ser acessado por meio de uma faixa de pedestres pela Rua Pascoal Vita.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Cerca de 20 pessoas participaram da ação naquele domingo. Conforme conta a designer Carolina Ferrés, uma das idealizadoras, a participação envolveu crianças e adultos, num clima de conquista dos direitos, de cidadania. “Não somos profissionais, mas tomamos o cuidado de medir as dimensões exatas de uma faixa de pedestres das proximidades e copiamos tudo. Ninguém poderia dizer que não respeitamos o padrão”, contou ela.

Tudo parecia caminhar bem. Caminhar, no caso, agora com a segurança de uma faixa de pedestres. Três domingos depois, o povo se reuniu novamente para pintar de azul, simbolicamente, o trecho onde deveria passar o córrego das Corujas. Até peixinhos foram desenhados, lembrando a todos uma São Paulo que poderia ter sido, mas que não foi – engasgada, entalada, entubada por obras asfálticas sob a desculpa do progresso, ó, o progresso.

Mas aí, no começo desta semana, o que era faixa de pedestres primeiro conheceu um banho de tinta preta – como se alguém tivesse acionado um delete na operação toda. Os pessimistas já estava esperando o pior, que no caso seria a Rua Pascoal Vita novamente ficar sem faixa para os transeuntes acessarem o parque com segurança.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Nova surpresa viria em seguida: por cima da tinta que apagou a faixa pintada pelos cerca de 20 ativistas veio uma nova faixa, agora oficial. Três anos e uma ação não autorizada depois, o logradouro público enfim é “legalmente atravessável”, digamos assim.

Interrogações por todo lado. “Tem uma rua na qual carros passam em alta velocidade entre uma praça e um parque, na Vila Beatriz. Passa muita criança lá, óbvio. Por muitos anos, os moradores solicitaram à CET que pintassem uma faixa de pedestres ligando a praça ao parque. Como nunca foram atendidos, chegou um dia que umas meninas porretas conseguiram tinta de asfalto e fizeram uma pintura coletiva. Faz algumas semanas. Fui lá com meu bebê, Aurora, que tem 1 ano e 9 meses, e nós dois demos nossas pinceladas de branco. Nossa faixa ficou bem bonita, modéstia à parte, apesar das irregularidades do asfalto. Voltei para casa orgulhoso de ter contribuído com a cidade, e depois fiquei imaginando o dia em que eu contaria para a Aurora, já grande, que ela tinha ajudado a pintar aquela faixa. Hoje fico sabendo que os energúmenos da CET foram lá, cobriram nossa faixa de preto e pintaram outra por cima”, escreveu, no Facebook, o jornalista Denis Russo Burgierman. “Tem algo muito errado acontecendo no Brasil. Por que que o estado brasileiro, ao mesmo tempo que é absolutamente incapaz de cuidar dos cidadãos, recusa nossa ajuda? Quando é que vão entender que o Brasil só terá esperança no dia em que cada brasileiro se sentir convidado a ajudar no que pode?”

Enviamos no início da tarde três perguntas para a CET. A saber: “Por que a companhia apagou a faixa pintada pelos moradores e fez outra exatamente no mesmo local?; Quantos funcionários foram necessários para fazer esse trabalho e quanto tempo o mesmo levou?; Qual o custo de tal operação?”. Apesar de o pedido de resposta ter sido para as 16h, até agora (são 17h), nada chegou. (Assumimos por telefone e repetimos aqui o compromisso de publicar, na íntegra, a posição da companhia neste mesmo post, tão logo esta nos chegue). ATUALIZAÇÃO: Recebi uma nota da CET às 17h48 e publico, na íntegra, abaixo – apesar de o texto não esclarecer todas as minhas dúvidas, limitando-se a responder apenas a primeira pergunta.

Carolina disse que, óbvio, não quer briga com ninguém. Pelo contrário, ela acredita que o melhor é tirarmos lições desse fato. A designer convidou representantes da CET para uma reunião com os ativistas, que se dispõem a ajudar a desenvolver um método – um aplicativo, talvez – para que as solicitações de melhorias simples, como uma faixa de pedestres, sejam feitas de modo mais direto e ágil à companhia. De acordo com ela, a companhia ainda não deu qualquer resposta se topa ou não a reunião – e a potencial parceria.

Ipsis litteris, a nota da CET:

“A CET elaborou um projeto em julho de 2014, propondo a implantação de pintura de faixa de travessia de pedestres na R. Pascoal Vita e também na Av. das Corujas, orientação com a inscrição DEVAGAR no solo, dupla amarela, sinalização vertical de advertência quanto à travessia de pedestres e sinalização horizontal e vertical de regulamentação de área destinada às operações de embarque e desembarque por 15 minutos com o pisca alerta acesso. O objetivo das medidas é proporcionar melhoria nas condições de segurança na travessia e no embarque/desembarque dos alunos do Colégio Aretê que inclusive se prontificou em executar o projeto. Uma cópia do projeto foi entregue à direção do colégio para que a execução do mesmo fosse realizada através do Programa Sinalização Comunitária.

Em março de 2015, a direção da escola informou à CET que não possuía previsão para executar a sinalização devido a outras atividades desempenhadas pela instituição de ensino. Em razão disso, novo projeto, em caráter prioritário, foi elaborado pela Companhia prevendo a implantação de faixas de travessia de pedestres na R. Pascoal Vita e na Av. das Corujas, sinalização de balizamento horizontal com dupla e tracejada amarela, bem como a retirada da faixa de pedestres pintada irregularmente e fora da medida padrão.

A sinalização irregular já foi apagada pela CET e o projeto em questão teve a sua execução encerrada em 30/03.”

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