A face desejada de Deus
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A face desejada de Deus

ARTIGO

Edison Veiga

13 Março 2016 | 00h15

Foto: Dylan Martinez/ Reuters

Foto: Dylan Martinez/ Reuters

Por Francisco Borba Ribeiro Neto*

O sucesso do papa Francisco indica um caminho obrigatório para a Igreja. Mas também revela algo sobre nós e nossa sociedade. Mostra que o racionalismo e o cientificismo, o desenvolvimento socioeconômico e a prosperidade material, até mesmo a liberdade e a erotização da revolução dos costumes, não conseguem preencher o coração humano.

Entre resignação, cinismo ou revolta, vivenciamos e até glamourizamos o “mal-estar da civilização”. Francisco, inesperadamente, testemunha que a vida não precisa ser assim, condena aquilo que nos desumaniza, deixando claro que não nos condena. Mostra o que falta, o “ponto de virada”: um amor gratuito, que se doa sem pedir nada em troca; que, ao se compadecer do mais fraco, nos dá a chance de sermos acolhidos em nossa fraqueza.

Em nosso tempo, a pessoa não deixou de querer ver a face de Deus – talvez deseje ainda mais. Mas não quer Deus para normatizar uma vida desumana, quer Deus para subverter esta norma, mostrando que o amor gratuito é possível. Francisco mostra que esse Deus pode existir, extraindo daí consequências políticas e sociais.

O papa atual faz um convite desafiador. Quase todos simpatizam e se sentem acolhidos por ele, mas quem está disposto a ser como ele? Para quem o admira, o desafio é apostar na hipótese de um Deus que se entrega a cada um, nos acompanhando e amparando nos momentos de sofrimento e provação; correr o risco de viver o amor como doação gratuita de si ao outro. Para Francisco, o desafio é convencer seus admiradores de que ele é mais do que um ícone a ser contemplado, uma ocasião de catarse em meio à aridez geral, que ele é o proponente de um modo de ser que pode nos tornar mais felizes.

Francisco indica um caminho sem volta, em continuidade a uma rota que a Igreja vem procurando seguir há muito tempo. Apesar de escândalos reacionários e arroubos “ultra progressistas”, sua mensagem e sua postura não representam uma ruptura. Deus caritas est, a primeira encíclica de Bento XVI, por exemplo, descreve claramente o modelo de amor cristão testemunhado por Francisco.

A novidade real de Francisco é romper as barreiras comunicativas entre o papado e o mundo de hoje. Encontrou os gestos e as palavras certas para comunicar uma mensagem represada nas formas e nas preocupações de um catolicismo ainda muito voltado para si mesmo. Sua Igreja “em saída” corresponde à “nova evangelização” que foi preocupação central de João Paulo II e Bento XVI, mas que só se tornou um tema compreendido por todos neste pontificado.

Na base do seu sucesso existem três elementos nem sempre reconhecidos. O mais evidente é sua ligação visceral com a Igreja missionária. A opção pelos pobres, a comunicação fácil com os que estão distantes, a preferência pelo risco do diálogo à sistematização doutrinal são características de quem vive em terras de missão, sem a segurança de uma Igreja bem postada socialmente. Mas o coração mesmo de Francisco está na experiência da misericórdia: a espantosa clareza com que se reconhece um pecador que recebeu um amor imerecido lhe dá essa igualmente espantosa capacidade de amar o mundo. Por fim, o terceiro elemento de seu sucesso, provavelmente o menos reconhecido, é que se apoia em seus predecessores. No início de seu pontificado, alertou que uma Igreja sem Cristo se tornaria apenas uma ONG piedosa. Esta foi sem dúvida a maior preocupação de seus dois antecessores, mas Francisco percebeu que – graças a um trabalho já realizado – ao menos na teoria este era um problema superado. Agora, o maior perigo era o de um Cristo sem amor.

* O sociólogo e biólogo Francisco Borba Ribeiro Neto é coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).