98% dos cursos d’água no centro foram canalizados
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98% dos cursos d’água no centro foram canalizados

Geógrafo idealizador do projeto Rios e Ruas diz que o primeiro passo para mudar situação é conscientizar população

Edison Veiga

12 Abril 2015 | 00h01

mapa

O resumo da história é trágico, principalmente quando nos lembramos que vivemos uma crise hídrica sem precedentes: o outrora Planalto de Piratininga tinha uma paisagem farta de cursos d’água. Chegaram os colonizadores e, 460 anos depois, quase tudo está entubado, canalizado, escondido sob concreto. E/ou poluído.

Todos os rios da região central sofreram alguma intervenção humana

“Precisamos salvar nossos rios” é, por isso, o mantra repetido por muitos ativistas contemporâneos. E faz sentido. Na região central do município, 98% dos cursos d’água estão sob concreto (confira infográfico acima) – e todos eles sofreram algum tipo de intervenção humana, como os fétidos Pinheiros e Tietê que, há décadas, passaram por um invasivo processo de retificação. Ou seja: em uma guerra idiota, o ser humano acreditou que poderia dominar as águas, vencê-las. Demorou muito para perceber que, oprimindo a malha fluvial, não há vencedores possíveis.

Dirigido por Caio Silva Ferraz, o documentário Entre Rios (2009) escancara essa história (o filme é este que pode ser assistido logo acima). Mas, em nossa sociedade 2.0, são muitos os que estão arregaçando as mangas para tentar mudar esse cenário de repressão fluvial.

O primeiro passo é o da conscientização. “Começamos a ir a campo, levar o assunto para a rua e envolver comunidades na busca dos córregos e riachos que está ali perto”, conta o geógrafo Luiz Campos Júnior, do projeto Rios e Ruas. “O bacana é que conseguimos mostrar que os rios seguem existindo. Eles podem ter sido canalizados, pavimentados, retificados… Mas seguem vivos, embora com ruas ou avenidas em cima”, completa seu sócio, o arquiteto e urbanista José Bueno (os dois são os que aparecem na foto abaixo).

Foto: Felipe Rau/ Estadão

Foto: Felipe Rau/ Estadão

No mês passado, um grupo de moradores do entorno do Parque das Corujas, na zona oeste de São Paulo, se reuniu para pintar de azul, simbolicamente, o trecho onde deveria passar o córrego das Corujas. Até peixinhos foram desenhados, lembrando a todos uma São Paulo que poderia existir de verdade, mas ficou apenas nos mapas e fotografias dos livros de História. Em nome daquilo que chamamos de “progresso”.

> Mapa interativo dos rios de SP