Uma semana com o decibelímetro na mão: o ranking dos barulhos de São Paulo

Uma semana com o decibelímetro na mão: o ranking dos barulhos de São Paulo

Mauro Calliari

18 Dezembro 2016 | 20h14

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Os barulhos da cidade medidos com o decibelímetro: Av. Eusébio Matoso, rua residencial no Alto de Pinheiros, mesa de padaria na rua Vupabussú, área de lazer do shopping Eldorado e parklet na Vila Madalena.

São Paulo é uma cidade barulhenta. A gente sempre ouve pessoas reclamando da música da festa no vizinho, dos aviões e do trânsito. Quem caminha, ouve barulho o tempo inteiro. Decidido a entender um pouco mais sobre isso, pedi emprestado um decibelímetro.

O aparelho parece um celular gigante, com um microfone em cima, que mede os ruídos numa unidade chamada decibel. O decibel usa uma escala logarítmica, o que quer dizer que uma pequena variação numérica representa um monte de barulho a mais.

Aprendi que existem alguns padrões estabelecidos por organizações de saúde: acima de 65 DbA, aproximadamente, um barulho constante pode causar irritações e daí para a frente só piora. A partir de 85 DbA, a pessoa pode ter sequelas auditivas e até complicações de saúde piores, chegando até a infarto.


A autora do belo livro “Uma paisagem sonora de São Paulo”, Helena Rodi Neumann, que me emprestou o aparelho, diz que, além da pressão sonora, os efeitos sobre as pessoas também dependem do tempo de exposição diária ao ruído. Por exemplo, um cobrador de ônibus vai, certamente, sofrer mais os efeitos do barulho do motor do que um passageiro que anda apenas alguns minutos por dia.

Passei uns dias com o aparelho, medindo tudo o que ouvia e as sensações de estar em meio aos barulhos. Eis o meu ranking pessoal dessa cacofonia sonora, medidos em decibéis (ou decibéus, como dizem os técnicos).

38 – rua residencial de madrugada

49 – rua residencial num domingo. Ouço pássaros, um homem diz que são sabiás

54 – Plataforma da Estação Fradique Coutinho do Metrô, vazia

55 – PATAMAR DE DESCONFORTO ACÚSTICO

60 – largo da Batata num domingo

64 – avenida Paulista num domingo sem os carros

64 – duas mulheres conversando ao meu lado no metrô: —  “aí, ele pegou e me disse…”

64 – um homem falando no celular na avenida Faria Lima: “mas o modelo é 2016 ou 2017? Se não for, não compra!”

65 – o exaustor da loja de pastéis da Maria, “o melhor pastel de São Paulo”, na r. Fradique Coutinho

65 – PATAMAR DE RISCO MODERADO À SAÚDE

67 – máquina do caldo de cana no Largo da Batata

68 – dentro do Shopping Eldorado, um corredor ainda vazio num domingo de manhã

69 – av. Faria Lima, com carros, sem ônibus nem motos

69 – música no alto-falante da padaria

71 – avião sobrevoa o bairro de Pinheiros, em direção a Congonhas

72 – fogos ouvidos no bairro de Perdizes. Desconfio que sejam palmeirenses.

74 –mesa de bar na Vila Madalena, ouvida do outro lado da rua, numa terça-feira à noite

75 – show de forró na avenida Paulista num domingo

76 – dentro do ônibus da linha Santo Amaro

80 – a praça de alimentação do Shopping Eldorado, cheia de gente, barulho de crianças e bandejas

80 – barulho do ônibus parado ao lado do ponto da av. Cidade Jardim

80 – carros passam em cima de uma tampa de bueiro que está solta na av. Faria Lima

84 – avenida Eusébio Matosos, de cima da passarela, com carros e ônibus passando às 17hs de um dia de semana. O simpático segurança da área, Renato, conta que essa é a hora em que ele coloca o protetor auricular.

84 – dentro do ônibus da linha Santo Amaro quando ele acelera para sair do ponto

85 – um caminhão com o motor ligado em frente ao parklet da r. Mateus Grou

85 – PATAMAR DE RISCO ALTO À SAÚDE

86 – operários operam uma serra de cortar mármore na r. Gabriel Monteiro da Silva

87 – chegada do trem na estação Sumaré do Metrô

90 –uma fila de motos buzinando na av. Rebouças às 17hs de um dia de semana

90 – no ponto de ônibus da av. Cidade Jardim quando um ônibus acelera para sair

91 – cachorro pequeno com latido agudo numa calçada em Perdizes

92 – buzina de um Honda Civic em frente à mesa da padaria na r. Pinheiros

95 – moto Harley Davidson acelerando na av. Dr. Arnaldo em frente às bancas de flores

 

Minha medição não tem nenhum valor estatístico, mas acho que consegui entender uma coisa: os barulhos da rua estão sempre próximos do limite de irritação e qualquer coisa adicional – uma moto, um ônibus, avião, uma buzina, leva o nível para cima.

A experiência de quem anda a pé pelas ruas é ainda mais desagradável, porque motoristas de carros, motos e ônibus ouvem menos o barulho que fazem do que os pedestres. Faça o teste: tente ter uma conversa com alguém numa calçada. Você vai notar que a conversa fica truncada a cada minuto porque alguém em algum lugar resolveu acelerar ou buzinar ou ligar uma música alta.

Alguns problemas são ridiculamente fáceis de resolver: basta que as pessoas que dirigem motos e carros guardem suas buzinas para uma emergência e não para saudar um conhecido, avisar que estão passando ou reclamar que o carro da frente demorou para andar. Também fico pensando se não é o caso da cidade repensar se quer deixar motos com escapamentos abertos saírem por aí…

Outros podem melhorar se tivermos uma fiscalização atuante. Bares que têm mesa para fora só precisam cumprir a lei em vez de ficar fingindo que abaixam o som quando (e se) aparecem os fiscais do PSIU.

Outros ainda dependem de regras claras. Os ônibus, por exemplo, podem ter sistemas de isolamento acústico melhor e isso poderia estar na nova licitação que a prefeitura está fazendo.

Também é possível pensar em soluções arquitetônicas, mais árvores e materiais isolantes, principalmente em lugares que produzem barulho constantemente, como bares, igrejas, estacionamentos, etc.

A cidade terá barulhos sempre, mas a vida pode ficar bem melhor se as pessoas pensarem nisso e diminuírem o volume sonoro de suas atividades.

fontes:

NEUMANN, Helena Rodi. Qualidade ambiental urbana: a paisagem sonora da rua Teodoro Sampaio – São Paulo. 2014. 323 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2014. http://tede.mackenzie.br/jspui/handle/tede/346

http://abracond.org.br/sp/materias/88-barulho-decibeis-psiu-

http://obaricentrodamente.blogspot.com.br/2011/11/logaritmos-os-sons-e-audicao-humana.html