“Smart Cities”. As cidades inteligentes de verdade também se preocupam com a baixa tecnologia
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“Smart Cities”. As cidades inteligentes de verdade também se preocupam com a baixa tecnologia

Mauro Calliari

08 Março 2018 | 11h32

Nos últimos anos, o termo “cidade inteligente” entrou na moda, mas o congresso Smart City  em Curitiba mostrou que vai ser preciso manter o foco na escala humana e nas médias e baixas tecnologias também.

Consultores, empresas e especialistas em cidades começaram a falar em smart cities e seus desdobramentos, start ups, big data, internet das coisas e hiperconectividade.

Entretanto, o termo ainda causa alguma estranheza. Afinal, quem é inteligente, a cidade, os cidadãos, a gestão, ou tudo junto? O que é ser inteligente, é melhorar o que já se faz ou é fazer coisas que não se pensava? E, no fim das contas, quem está ganhando com isso, os fornecedores ou os cidadãos?

Para conhecer um pouco mais sobre isso e tentar começar a responder a essas perguntas, participei do Congresso Smart City, que aconteceu em Curitiba na semana passada. Assisti a dezenas de painéis, visitei os stands, conversei com os palestrantes e os visitantes. Deu para começar a aprender algumas coisas:

O que são, afinal, as Smart Cities?

O professor Marcos Cesar Weiss, do laboratório de sustentabilidade da Poli/USP, palestrante no congresso, resumiu: “Cidades inteligentes são aquelas que usam a tecnologia para melhorar a vida das pessoas e as suas condições de operação”.

Não há mistério, estamos falando de um objetivo muito claro: melhorar a vida da população.

Vários apresentadores  fizeram questão de apresentar definições muito parecidas com essa. Parece ser uma reação ao uso indiscriminado do termo Smart City nos últimos anos, para vender aplicações não necessariamente úteis. Fascinados pelos gadgets, os  gestores públicos compravam sistemas caros para fazer  aquilo que poderia ser feito com menos dinheiro e menos tecnologia. O alerta foi dado: “Smart City não tem a ver com brinquedinhos de tecnologia”. Vamos, então, olhar para o futuro das nossas cidades.

Uma das frentes mais palpáveis desse futuro é a mobilidade.

Carros elétricos

Os carros elétricos já estão rodando em vários países. Na Holanda, a partir de 2025, o motor a combustão será banido e hoje, segundo a KPMG, quase 40% dos carros novos já são elétricos. Eles já contam com 20 mil estações de recarga. A autonomia está aumentando e há carros que já conseguem andar mais de 150 km com uma carga de bateria.

Carro elétrico. Foto: M.Calliari

Na feira, foram apresentados os simpáticos carrinhos elétricos da Renault, que acomodam uma ou duas pessoas. Não são muito confortáveis se comparados aos carros regulares, mas ocupam menos espaço nas ruas, além de não emitirem gases e não fazerem barulho. Uma rua com carros elétricos é um alívio sonoro.

Veículos autônomos

Os autônomos já estão rodando por aí, com tecnologia baseada em sensores conectados a redes 5G. A questão hoje é muito mais ligada à legislação do que à tecnologia. O consultor Richard Threlfall mostrou um ranking dos países com mais condições de infraestrutura para receber carros autônomos: 1-Holanda, 2-Singapura e 3-EUA.

O número de pessoas que morrem anualmente em acidentes de automóvel é de 1, 3 milhões. Será que os carros auto-guiados serão mais seguros que os guiados por pessoas? O MIT acha que sim. O diretor do Senseable Lab, do MIT, Carlo Ratti mostrou uma simulação em que até os semáforos poderiam ser abolidos, tal o grau de integração dos carros entre si – e até com os nossos celulares, queiramos ou não.

Veículos compartilhados

Carros e bicicletas compartilhados, essa é a revolução mais próxima de nós. Para Carlo Ratti, o impacto causado pelo compartilhamento dos veículos nas cidades vai ser tremendo. Nos Estados Unidos a cada carro nas ruas, correspondem 3 vagas em alguma garagem. No momento em que cada um não precisar mais ter seu próprio carro, a cidade vai liberar milhões de metros quadrados de áreas que eram estacionamentos.

A diretora de pesquisa do 99 Taxi, Ana Guerrini mostrou como o uso de dados desses serviços é poderoso – em alguns lugares das grandes cidades brasileiras, o compartilhamento de taxis já começa a ser uma opção econômica em relação ao próprio transporte público. O uso das informações pode ser útil para gestores públicos, como a previsão dos lugares de maior demanda em cada hora em cada local da cidade, mas também pode ser amedrontador, apesar de ninguém ter tocado na questão da privacidade dos dados.

Prefeitos e serviços públicos

Os gestores públicos já estão se envolvendo com as possibilidades de melhorar os serviços que prestam à população de suas cidades. Vários prefeitos estiveram num painel e mostraram o que andam pensando. Muitas vezes são coisas básicas, mas a maioria delas tem o poder de reduzir o tempo que o cidadão tem que passar tentando lidar com os serviços públicos. São dezenas de aplicativos no celular para marcar consultas, para saber em qual posto de saúde vai estar o seu remédio. Campinas é uma das cidades que apresentaram essas soluções no congresso. O prefeito Jonas Donizette mostrou um aplicativo que permite a um arquiteto saber instantaneamente a situação de algum imóvel – em que setor do zoneamento ele está,  o que pode e o que não pode ser construído, etc.

As promessas são muitas, parece haver uma competição saudável entre os prefeitos para mostrarem novidades nessa frente. Os custos são baixos e os resultados são relevantes. Nós de fato perdemos tempo demais fazendo coisas burocráticas, como lembra o diretor de serviços digitais da prefeitura de Buenos Aires, Augustin Suarez, que estima que perdemos até 10% do nosso tempo esperando em filas, preenchendo dados e reservando serviços públicos. A capital portenha está juntando todos os serviços públicos num portal só, numa espécie de poupa-tempo no celular.

Nova configuração de cidade

Cidades estão perdendo lojas. 25% dos Shopping Centers americanos devem fechar nos próximos 5 anos. Escritórios poderão ser cada vez mais espaços de co-working e menos aquele lugar onde os funcionários ficam o dia inteiro em reuniões, tomando café e esperando a hora de ir embora. A cidade será reconfigurada, para o bem e para o mal.

O contraponto à tecnologia como um fim surgiu na apresentação de Paula Manoela dos Santos, coordenadora de mobilidade ativa do WRI Brasil. O desafio das cidades brasileiras são nossas ruas, nossas calçadas, nossa falta de infraestrutura e de desenho urbano. Daí o uso do termo “ruas completas”, que tem paralelo com outros conceitos que o pessoal usa hoje em dia, como “placemaking” ou  “cidades para pessoas”.

Rua completa. Fonte: WRI

A ideia é que a rua seja redesenhada, para acomodar melhor as pessoas que andam a pé, os ciclistas e o transporte público, abrindo espaços para algum convívio nas calçadas. Foi um pequeno alívio ver esse conceito tão caro para quem olha a cidade a partir de suas calçadas e não dentro de um carro ou de cima de um prédio “inteligente”.

Afinal, quando chegamos a um ponto de ônibus em São Paulo, é melhor ter um adesivo simples no poste informando as linhas que circulam por ali do que ter que acessar um aplicativo caro e complicado que pode ou não funcionar.

A baixa tecnologia nunca foi tão necessária num mundo tão tecnológico

Quem está pensando no futuro da cidade corre o risco de colocar a tecnologia como o grande motor de transformação. Mas o congresso do Smart City mostrou que há muita gente pensando na cidade a partir do ponto de vista da escala humana e que vai ser bom mantermos o foco nas médias e baixas tecnologias.

Enquanto vemos drones da Amazon fazendo voos-teste para entregar um novo aparelho celular da última geração para alguém que já tem tudo, nossas cidades têm falta de tudo, desde calçadas até tratamento de esgoto, passando pela desinformação sobre serviços básicos.

O jornalista André Trigueiro fez um alerta incisivo sobre a falta de infraestrutura de esgoto, de destinação do lixo nas cidades brasileiras e, talvez o maior problema do mundo no curto prazo, da água. Um painel mostrou como em outros países já se questiona e se ataca o modelo perverso:

Take (Pegue)-Make (Faça)-Consume (Consuma)-Dispose (Jogue fora)

Há soluções pontuais, algumas cidades parecem estar um pouco à frente das outras com algumas práticas melhores, mas diante da constatação de que o homem já mudou o clima no mundo, nenhum cenário de futuro vai passar incólume pelo teste do meio ambiente. Sem essa preocupação com o meio ambiente, simplesmente não há futuro.

 

Imagem: https://www.toposmagazine.com/smart-city-and-urban-transport/