Cidade em jogo. Alunos que brincam de prefeito começam a entender a complexidade da cidade
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Cidade em jogo. Alunos que brincam de prefeito começam a entender a complexidade da cidade

Mauro Calliari

30 Janeiro 2018 | 18h23

Investir em ciclovias ou na construção de um novo hospital? Terceirizar o transporte coletivo ou atualizar a planta genérica de valores do município?

As dúvidas que todo prefeito têm podem servir de ponto de partida para uma conversa com estudantes do Ensino Médio em sala de aula. Há novos jogos para estimular os alunos a se interessarem por esse e outros temas. Eu testei um deles, o Cidade em jogo e achei que a mistura de game e cidade pode ser um ótimo estimulo para os alunos.

A “gamificação”. Por que usar jogos em sala de aula?


Procurei com um especialista em educação, o Marco Antonio Ferraz, educador, consultor de escolas e autor do blog Prof, para saber como esse negócio de games que simulam a realidade está sendo visto pelos educadores.

“A Gamificação promove um grande engajamento do alunos no seu aprendizado e é altamente interativa”, diz Marco Antonio . Para ele, as chamadas metodologias ativas ajudam os alunos a serem protagonistas de seu aprendizado, enquanto o professor assume mais fortemente o papel de facilitar e mediar essa aprendizagem.

Ou seja, com a ajuda de ferramentas como games, os professores passam menos tempo explicando algo aos alunos e mais tempo em discussões sobre o que eles estão aprendendo. Não é pouca coisa, ainda mais pensando numa geração de adolescentes hiperconectados, que têm dificuldade para se concentrar.

A cidade. Um objeto de estudo quase ignorado em sala de aula

É até estranho que os alunos brasileiros precisem de ajuda para pensar na cidade, onde eles moram, passeiam, namoram e estudam. Mas muitas vezes os alunos passam pelo Ensino Médio inteiro discutindo o feudalismo na França sem aprender nada sobre a industrialização de São Paulo.

Cidade em jogo

O Cidade em jogo foi lançado em agosto, depois de dois anos sendo desenvolvida pela Fundação Brava, uma organização sem fins lucrativos cuja missão é investir e desenvolver projetos de melhoria da gestão pública e pelo Brazil Institute do Woodrow Wilson Center, um Think Tank de políticas públicas ligado ao congresso americano.

O público alvo são os estudantes do ensino médio, entre 15 e 18 anos, que têm a chance de administrar uma cidade, como se fosse um Sim City, mas com uma avaliação ao final do mandato.

Como os professores podem acessar o jogo?

O jogo é gratuito. Os professores se cadastram e os alunos jogam online. Sete mil alunos das redes pública e privadas já experimentaram até agora.

Curiosamente, aliás, há uma variedade nas disciplinas que se interessaram em levar o jogo para a sala de aula: além dos esperados professores de geografia, história e sociologia, há professores de outras disciplinas testando o jogo com os seus alunos: matemática, física e até português. Acredito que isso faça sentido, porque o jogo, no mínimo, obriga os alunos a lerem instruções e a entenderem os prós e os contras de cada ação, o que o torna interdisciplinar por natureza.

A simulação da gestão municipal

Segundo Henrique Kriger, coordenador de projetos Fundação Brava, o jogo mede a coerência entre o que o aluno-prefeito promete e a ação no jogo.

A cada uma das dez rodadas, os alunos fazem escolhas de onde investir os recursos da prefeitura. Há um cardápio grande, que inclui educação, saúde, cultura, infraestrutura e saneamento, urbanismo, cada um com uma série de possibilidades. Ao final do jogo, o sistema dá um resultado ao trabalho do grupo, avaliando a gestão.

O que o jogo mede

Ganham aqueles que forem coerentes e que consigam manter o equilíbrio entre:

RECURSOS-SATISFAÇÃO DOS MORADORES-INFRAESTRUTURA

O jogo ajuda a lembrar os “prefeitos” que a administração têm que ter um olho nos gastos e outro nas receitas. Cuidar desse balanço é sempre bom, ainda mais após a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Uma das questões que se coloca é a qualidade do serviço. Assim, os alunos precisam decidir se mantém, por exemplo, uma frota própria de ônibus ou se terceirizam, pensando na qualidade e no caixa.

Como estabelecer o peso para a satisfação da população em relação a cada ação?

Henrique explica que impacto de cada medida no indicador de satisfação popular foi definido com base em pesquisas de opinião pública sobre quais os assuntos mais emergenciais nas 15 cidades de maior população do Brasil nos anos de 2012 e 2016. Com base neste ranking, o programa calculou o quanto cada medida resolvia essas prioridades.

É claro que os pesos são discutíveis. Pessoalmente, achei que talvez o algoritmo esteja dando mais pontos para quem decide pela terceirização logo de cara, mas mesmo isso é um bom ponto de partida para as discussões em aula. Os professores poderão discutir a gestão a partir das questões dos alunos.

E o que os alunos estão achando disso tudo?

A primeira constatação é que alunos da rede pública e privada partem de pressupostos diferentes. Enquanto os alunos de lugares mais carentes pensam primeiro em transporte público, postos de saúde, creche e pavimentação das ruas, os alunos da rede privada tendem a discutir questões mais conceituais como competitividade e tecnologia.

Ambos serão expostos aos resultados das escolhas, mas é bom lembrar que o jogo provavelmente vai alertar para que os serviços incluam toda a população e vão penalizar quem não pensa nisso.

Outra constatação é que os alunos não sabem bem quem é responsável por cada coisa na administração pública. Um exemplo é a segurança, que tem um peso grande do Governo do Estado, com a administração da PM, mas que os alunos achavam que era atribuição exclusiva da prefeitura.

Mas a coisa mais interessante é que os alunos gostam de discutir as cidades. “Ficamos surpresos com a força que esse tema tem na sala de aula”, diz Henrique, o que faz todo sentido. Moramos nas cidades, mas não falamos sobre elas na escola. Os jogos podem ser um bom estímulo para ajudar a mudar isso.

A plataforma é bem simples, não há muita interação visual, mas o jogo todo é um exercício lógico, de escolher ações que cumpram a estratégia estabelecida no início (as promessas).

Gestão e política.

São muito bem vindas as iniciativas para discutir a cidade em sala de aula. Espero que jogos como esse estimulem os alunos a conhecerem mais as cidades onde moram e os professores a incluírem cada vez mais atividades sobre a história e a gestão das cidades.

Apesar de os criadores do jogo esperarem que se separe a política da gestão, acredito que é justamente no contrário que está o valor do jogo: citando o professor Valter Caldana, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, não há atos de gestão que não sejam políticos, ou seja, tudo o que se decide na administração pública é fruto de escolhas políticas. O bom é que o pano de fundo do jogo é um excelente estimulador dessa conversa na sala de aula.