A comovente e perigosa caminhada dos peregrinos no acostamento da Via Dutra
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A comovente e perigosa caminhada dos peregrinos no acostamento da Via Dutra

Mauro Calliari

11 Outubro 2017 | 00h04

Romeiros em direção ao Santuario de Aparecida. Foto José Patricio/Estadão

Às vésperas do feriado de Nossa Senhora de Aparecida, os romeiros tomaram a Via Dutra.

Em grupos ou em pares, em excursões organizadas ou sozinhos, o hábito de ir a pé até Aparecida está aumentando ano a ano. Estima-se que mais de 10 mil pessoas terão andando por lá nesse ano.

Passei de carro pela via Dutra nos últimos dias e vi centenas de pessoas andando no acostamento. É comovente vê-los enfrentando o sol, a chuva, o cansaço, o barulho dos carros e o perigo real de um atropelamento.


“O cansaço purifica, destrói o orgulho”, diz o filósofo Frédéric Gros sobre os peregrinos. O andarilho se despe de tudo o que é supérfluo e se concentra no ato mais básico do homem, andar.

A peregrinação medieval a Roma, Jerusalém e Santiago

A peregrinação cristã vem desde os primeiros séculos da nossa era e se afirmou na Idade Média como um ritual de purificação, de agradecimento por uma graça, de penitência por um crime ou uma prova de fé.

Caminhar nas estradas medievais era muito perigoso. O auto do livro “Uma história do Andar”, Joseph Amato, estima que metade dos peregrinos era roubado ou assassinado em seus trajetos. Tão comum eram os crimes que a pessoa era obrigada a fazer um testamento antes de partir em peregrinação.

Jerusalém e Roma eram os principais destinos até que Santiago de Compostela foi ficando cada vez mais importante, com paradas protegidas, cidades acolhedoras e um roteiro mais seguro.

O caminho de Santiago valoriza, até hoje, o caminhar, tanto quanto o próprio destino: “Companheiro, é nossa obrigação caminhar, sem nos demorarmos”, diz a canção do caminhante.

A peregrinação contemporânea a Aparecida do Norte

O caminhante que vai a Aparecida do Norte ganhou o apoio logístico de carros e até tendas com bebidas geladas em dias de calor.

Mas o sofrimento na beira da estrada ganha uma dimensão de perigo quando se pensa no risco de atropelamento. Em 2017, já houve uma morte e pelo menos quinze pessoas atropeladas. O barulho e a fumaça dos carros também devem aumentar as provações dos caminhantes e seguramente tornam a caminhada menos contemplativa.

Existe a ideia de criar outras rotas, como um caminho ao longo do Rio Paraíba. Além de ser mais seguro talvez venha a trazer aos caminhantes cansados a chance de pensar mais profundamente em suas vidas e suas provações.

De qualquer modo, é bonito ver as pessoas num mundo tão cheio de estímulos como o nosso desligando-se por alguns dias da vida cotidiana e, principalmente escolhendo os pés para buscarem as suas verdades.