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Selva do Peru esconde campos de extermínio, diz pesquisadora

Pablo Pereira

09 Dezembro 2014 | 12h42

O mundo andino, intrigante e desafiador por sua geografia, é apaixonante. Mas para além dos passeios turísticos exóticos de Cuzco, no Peru, o isolamento de comunidades nas montanhas pontudas e vales impressionantes da Cordilheira dos Andes esconde dramáticos micromundos. Outro dia, apurando informações sobre a situação de meninos-soldados sul-americanos, trágico legado das diferenças políticas do pobre sub-continente americano, que saiu em reportagem no O Estado de S.Paulo (abaixo, links das páginas), entrevistei uma antropóloga peruana, Mariella Villasante Cervello,  pesquisadoras associada ao Instituto de Democracia e Direitos Humanos da Pontifícia Universidade Católica do Peru, que estuda o assunto. Pesquisadora preocupada com o gravíssimo quadro de exploração de crianças e jovens por grupos armados, à esquerda e à direita, ela descreve cenas desoladoras de massacres ideológicos.  Esquecidos na selva andina peruana, segundo a antropóloga, há os “campos de reeducação e de morte, os únicos campos totalitários do continente”, nos quais teriam sido exterminados até 6 mil indígenas de comunidades vítimas do confronto com o Sendero Luminoso. Abaixo, a íntegra da entrevista.

Há imagens recentes do grupo Sendero Luminoso, no Peru, e também informações sobre grupos armados da Colômbia e Paraguai, de recrutamento de jovens e crianças para a luta armada. Como a senhora analisa esse movimento na América Latina?

Os grupos armados necessitam sempre recrutar crianças e adolescentes para assegurar a continuidade de suas ações subversivas. São os “meninos-soldados”. No Peru, os primeiros que iniciaram esse tipo de recrutamento foram os membros do Partido Comunista do Peru, Sendero Luminoso (PCP-SL). Depois da prisão de Abimael Guzmán, em 12 de setembro de 1992, o grupo se dividiu entre os que queriam continuar a guerra (em Huallaga e no Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro, o Vraem).  É preciso lembrar que esta longa guerra civil peruana, que ocorreu entre 1980 e 2000, e que é ainda muito pouco conhecida na América Latina, já produziu mais de 70 mil mortos, segundo projeções da Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR), que entregou seu informe em agosto de 2003 ao então presidente Alejandro Toledo. Toledo e Alan Garcia não adotaram as recomendações da CVR e abandonaram a região da selva central, onde ficaram centenas de senderistas. Em 2008, as Forças Armadas voltaram à zona, que foi declarada em estado de emergência até hoje. O grupo de Huallaga foi desmantelado há dois anos. O único que continua é o grupo Sendero Rojo (vermelho), no Vraem, dirigido pelos irmãos Quispe Palomino. Se sabe que eles continuam treinando meninos e adolescentes em “escolas populares”, que seguem o modelo comunista inventado na Rússia, sobretudo na China, mas que também se observa nos movimentos islamitas atuais (Al-Qaeda, Estado Islâmico).

Qual deveria ser a ação dos governos nacionais para cessar essa violência contra as crianças no subcontinente? E o que causa esse fenômeno?

Os governos têm de intervir de maneira internacional na luta militar e social contra a existência de grupos armados, nos quais se recrutam meninos e adolescentes com diferentes funções: os meninos são preparados para serem futuros combatentes, enquanto que as meninas são usadas como objetos sexuais. No Peru, a CVR recolheu dezenas de testemunhos sobre estas práticas bárbaras tanto no PCP-SL, quanto no MTRA (Movimento Revolucionário Túpac Amaru) e mostrou também o uso de adolescentes nas Forças Armadas. O  governo de Ollanta Humala tem sido o primeiro a levar a sério o desmantelamento dos acampamentos senderistas. Há três anos se conseguiu encontrar e libertar algumas dezenas  de “meninos-soldados”. A estratégia foi e continua sendo eminentemente militar, mas faz dois anos que se instaurou programas de desenvolvimento e ações civis no Vraem. As táticas militares seguem como as que usam os senderistas, o que  é mais sensato que atacá-los em combates regulares. O problema central é que os subversivos trabalham em aliança com os narcotraficantes e obtêm recursos para alimentar suas “escolas populares”. De maneira muito esquemática se pode dizer que a violência contra as crianças é parte da bagagem ideológica das guerrilhas comunistas e em consequência os governos devem compreender que o único modo de lutar contra ela é incentivar o desenvolvimento local, aportar serviços do Estado nos rincões. E justamente porque em países como Peru, Colômbia ou Paraguai, o Estado não está presente em vastas zonas que as guerrilhas e grupos de narcotraficantes têm podido instalar-se e se desenvolver com o apoio voluntário ou forçado das populações rurais. No caso do Peru, Abimael Guzmán conseguiu instalar seu movimento armado maoísta, o único em todo o continente americano, no centro e sul dos Andes, e também na amazônia central, todas zonas abandonadas pelos governos desde sempre, extremamente pobres e com uma presença importante de jovens. Os militantes senderistas foram os primeiros a considerar que as crianças, seus próprios filhos, deveriam ser entregues à “guerra popular”. E Guzmán repetiu em muitos discursos a necessidade de contar com uma “reserva infantil”, que seriam os futuros “novos homens da revolução”. Portanto, aos senderistas foi encomendada a “tarefa revolucionária” de ter filhos destinados à revolução. E, de forma paralela, os militantes raptaram milhares de meninos, meninas e adolescentes dos Andes (Ayacucho, Junin) e da selva (ashaninka, nomatsiguenga e andinos) destinados a serem também os futuros revolucionários.

Como vê as negociações de paz em curso entre governo e guerrilha da Colômbia, em Havana, que nos últimos dias teve depoimentos de vítimas da guerra?

As negociações de paz entre guerrilhas colombianas e o Estado são muito complexas, pois os subversivos pretendem obter a anistia e assim evitar o castigo para seus crimes. No entanto, sem Justiça Penal não se pode pretender chegar a uma reconciliação nacional. No Peru, temos a sorte de processar os principais responsáveis pela violência terrorista e a repressão igualmente bárbara (Fujimori, Hermosa Rios, Montesinos…), mas falta ainda terminar muitos processos de massacres cometidos sobretudo por militares contra a população acusada de “terrorismo”.

O uso de crianças como soldados é, segundo regras internacionais, um crime de lesa-humanidade. Por isso, grupos guerrilheiros evitam reconhecer isso como prática. Como resolver isso no ambiente de uma negociação de paz, como o processo em andamento na Colômbia, onde bandas criminais (os paramilitares) já foram condenadas pelo tema?

O uso de “meninos-soldados” é um crime de lesa-humanidade e os responsáveis devem ser julgados e condenados. Principalmente em uma negociação de paz, a impunidade não pode garantir que a paz seja alcançada entre populações que tenham sofrido abusos de guerrilheiros ou soldados.

A senhora tem dados atualizados dessa prática de recrutamento no Peru? Recrutados, mortos?

Não há dados precisos sobre o recrutamento de crianças no Peru. Se sabe somente que foram e ainda são milhares, como aparece no Informe da CVR, que explicita também o uso de crianças como vanguarda dos ataques senderistas como “meninos-bomba” contra os militares. Ronald Gamarra escreveu um informe sobre o tema para o CIDH (Comitê Interamericano de Direitos Humanos) sobre o recrutamento e alistamento de meninos, meninas e adolescentes.

Como a senhora acha que deve ser a abordagem para recuperar um menino, menina ou adolescente que tenha sido submetido aos treinamentos com armas e a vida em acampamentos. Como devolver à sociedade um pequeno, vítima desse processo?

É muito difícil determinar uma estratégia de recuperação de crianças e adolescentes habituados durante anos com o discurso da violência, que cresceram no ódio e na barbárie, que também sofreram na carne a violência de subversivos, incluindo mulheres (como a sinistra Camarada Olga). Provavelmente, o caminho mais adequado seja uma internação de vários meses em hospitais psiquiátricos onde possam receber tratamento médico adequado. É preciso notar que se trata de crianças que têm vivido sempre no sofrimento físico e moral. Que têm traumas importantes e que o processo de cura pode ser muito longo. A maioria dos adultos que sobreviveram à guerra civil no Peru segue vivendo mal. Escrevi um pouco sobre as sequelas da guerra entre os ashaninka e o panorama é desolador. O povo ashaninka e seus parentes nomatsiguenga – estimados em 50 mil a 55 mil em 1990 – são os que mais sofreram durante a guerra civil peruana. A CVR estima que 6 mil morreram no que foi chamado de “campos de reeducação e de morte”, instalados por senderistas na selva central. Lembremos que também existe uma comunidade ashaninka no Brasil, instalada no Rio Amonia há 30-40 anos. A existência destes campos, que seguiam o modelo comunista, na versão maoísta, é totalmente desconhecida no Peru e no mundo. Porém, foram os únicos campos totalitários do continente. Até hoje se descobre fossas comuns nas quais foram enterrados milhares de ashaninka, e os responsáveis por estes massacres de massa não foram ainda identificados, enquanto as famílias das vítimas e associações de defesa de direitos humanos estão apoiando as buscas por restos mortais e identificação, como ocorre na região de Ayacucho. Atualmente, a violência dos homens se volta contra as mulheres e os filhos, que sofrem com a violência doméstica cotidiana. Por outro lado, o alcoolismo é corriqueiro, as violações de mulheres e meninas, que antes eram muito raras, se tornaram frequentes. De maneira geral, a desordem e a perda de referências morais caracterizam a maioria dos grupos familiares deste povo. A violência contra a mulher se tornou o principal problema enfrentado pela Defensoria Pública. Esta situação implica que estamos vivendo um período de pós-guerra que ninguém quer reconhecer como tal. A sociedade peruana prefere viver na negação do passado de violência e na negação do presente desestabilizador, que caracterizam as zonas que estiveram no centro da guerra: Ayacucho e a selva central. É preciso acrescentar que toda a América Latina enfrenta diversos tipos de violência social ou política, seja subversiva, do Estado, ou criminal, mas nenhum governo se mostra capaz de enfrentar as causas profundas: o subdesenvolvimento, o abandono pelo Estado das maiorias pobres que vivem em situação de subnutrição, com problemas de saúde, sem educação e sem ajuda social. A pobreza e a ignorância predominam e facilitam a instalação da violência entra as pessoas, que preferem crer que lançando bombas e educando crianças para a luta armada contra o “inimigo” estatal se poderá melhorar a vida no futuro próximo. O discurso dos governos em países como Peru e Colômbia segue fora da realidade e as sociedades preferem viver na ignorância, fechando os olhos também para os excessos repressivos de militares e polícias, seja tratando-se de terroristas, seja tratando-se de criminosos comuns. Considera-se que a morte e a tortura destas gentes marginais é o “preço da paz” social…

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Abaixo, os links para as páginas da reportagem Meninos-soldados, um drama sul-americano

O Estado de São Paulo, página 

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O Estado de S.Paulo, página 

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