Oziel, mártir terena na luta por terra no Mato Grosso do Sul
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Oziel, mártir terena na luta por terra no Mato Grosso do Sul

Pablo Pereira

09 Junho 2013 | 01h11

O índio Oziel Gabriel, de 35 anos, morreu após ser baleado durante a ação de reintegração de posse da fazenda Buriti, determinada pela Justiça de Mato Grosso do Sul, no dia 30 de maio. Oziel (na foto acima, cedida pela família, minutos antes de morrer) estava com um dos dois filhos quando foi atingido por um tiro. Ele tentava se proteger da tropa em uma pequena mata no meio de um descampado, a cerca de 400 metros da sede da Fazenda Buriti.

A polícia investiga o autor do disparo. Os terena acusam a Polícia Federal. O inquérito está sendo acompanhado pelo procurador Émerson Kalif Siqueira, do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande.

Uma semana após o crime, familiares de Oziel voltaram ao local para mostrar o lugar no qual o terena caiu – e de onde foi retirado pelos indígenas para ser levado ao hospital de Sidrolândia, onde morreu.

“Foi aqui”, disse o irmão de Oziel, Jabez, de 41 anos (foto), acompanhado por familiares no começo da tarde de quinta-feira, quando o clima de tensão na região começava a se dissipar. O governo federal mandou tropas da Força Nacional para o município, o que ajudou a acalmar os terena, os fazendeiros e os moradores da cidade, que tem 50 mil habitantes.

“Um guerreiro gritou: Abaixa, Oziel! Mas não deu tempo. Ele caiu, baleado no peito. O filho foi o primeiro a ver o pai no chão”, contou Jabez, um dos 8 irmãos de Oziel. Em árvores do capão de mato há marcas de machado em troncos – de onde teriam sido retiradas balas disparadas pela tropa policial. Uma delas atravessou o corpo de Oziel.

Em dois dias de coleta de depoimentos nas aldeias, o procurador do MPF recebeu dos índios diversos cartuchos deflagrados na ação da tropa. O material deve ser anexado ao processo que apura o crime. Na quinta-feira, novas buscas foram feitas no local na tentativa de localizar mais cápsulas.

Depois da morte, os índios reagiram ocupando novas áreas e expulsando produtores em clima de guerra. Na terça-feira, Josiel Gabriel Alves, primo de Oziel, foi baleado nas costas por desconhecidos que estavam em uma camionete na fazenda São Sebastião. Levado para a Santa Casa de Campo Grande, corre o risco de ficar paraplégico. A bala entrou na altura do ombro direito, e se alojou na coluna.

A situação na região se acalmou somente na quinta-feira, após a chegada à cidade do comandante da Força Nacional, Luiz Alves, que se reuniu com caciques das 9 aldeias terena, mais o procurador e o chefe da Funai, Jorge Neves. O major apresentou aos índios o plano de pacificação, que tem presença de soldados em cinco postos nas estradas da área do conflito.

Os índios estão em pelo menos 12 fazendas. Os produtores rurais foram obrigados a sair, perderam muito do que tinham, suas casas foram queimadas. Na reunião, os caciques reclamaram da ação violenta da Polícia Federal, e da demora do governo federal em lhes garantir a posse dos 17,3 mil hectares que querem. Mas aceitaram a tropa da Força Nacional como segurança na área, enquanto Brasília prolonga o impasse.

Fazendeiros também declararam apoio à presença da Força Nacional, embora esperassem a retirada dos índios, como determinou ação da Justiça local, suspensa pela Justiça federal depois do agravamento da tensão. De acordo com Francisco Maia, líder rural da Acrissul, de Campo Grande, a presença dos soldados dá tranquilidade, mas não resolve o impasse da disputa das terras.

Na aldeia Córrego do Meio, onde mora a família Gabriel, Oziel foi enterrado no dia 3, perto do avô, Armando Gabriel, que morreu em 2010, aos 94 anos. Armando contava aos netos histórias de ancestrais e apontava para os morros ao redor da aldeia, lembrou Jabez, mostrando a extensão das terras que queria um dia ver demarcadas para os terena. Ele foi cacique por 38 anos, e morreu sem concretizar o sonho. O avô e Oziel eram muito próximos, contou Jabez. “Era ele que acompanhava meu avô o tempo todo”, argumentou.

Oziel era casado, evangélico, gostava de futebol, era torcedor fanático do São Paulo e técnico do time da aldeia, o Sociedade Esportiva Independência. Era funcionário público concursado na prefeitura de Sidrolândia. Foi também trabalhador da indústria de frangos Seara, que emprega dezenas de índios.

Oziel não era de muito falar. Mas tinha participação na militância pela tomadas das terras, lembrou o irmão, que é professor de português em escola pública do município. O sonho dos terena tem uma área de 17,3 mil hectares, já identificada pela Funai, porém ainda não demarcada pelo governo federal porque sobre ela há pelo menos 23 fazendas tituladas de não-índios.

Oziel morreu, mas sua luta não será esquecida, garantiu Jabez. Ele pode virar nome de fundação. “Vamos ver se conseguimos fazer uma fundação para preservar a luta dele, e do povo terena”.

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