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O senso público e o exemplo que vem de baixo da ponte

Pablo Pereira

10 Julho 2012 | 13h26

Uma das coisas mais duras para uma pessoa, fora a morte de gente querida, é não ter um local digno para morar. Ter uma casa organizada para abrigar os filhos, para fugir do atávico temor do escuro, para curtir a memória do aconchego uterino, é necessidade mais do que básica. Dá integridade aos adultos, confiança aos jovens, agasalho aos idosos, estabilidade às famílias.

É por isso, talvez, que o drama de pessoas obrigadas a “morar embaixo da ponte”, acabada expressão de abandono, seja sempre tão tocante. Infelizmente, neste país ainda tão injusto – e nesta São Paulo tão rica -, esta é uma realidade tão presente quanto ignorada pelos administradores públicos que vivem sentados sobre burras cheias do dinheiro do contribuinte.

Bom dia, esse 9 de julho, feriado na cidade, para conhecermos a história do casal que, mesmo morando sob um viaduto da Zona Leste, mantém viva consigo uma das mais belas atitudes humanas, a honestidade. Eles encontraram dinheiro na rua, R$ 20 mil, certamente quantia que lhes seria muito útil. E devolveram o pacote.

Mesmo na miséria, necessitados, não perderam a dignidade – o homem teria dito à polícia que havia se lembrado de ensinamento recebido da mãe. Eles continuarão dormindo ao relento, mas com a paz de quem não pega o que não é seu e nem se beneficia do alheio.

O casal do viaduto, triste exemplo dos milhões de desvalidos brasileiros, paulistanos, esquecidos pelo Estado, escancara uma pouco notada, porém não menos abjeta, forma de enganação. Não é só o corrupto escrachado que lesa os cofres públicos e afronta a cidadania diariamente que deve ser combatido.

Ignorar o senso público e viver das benesses do dinheiro tomado do contribuinte, gozar de promoção pessoal pelo porte de uma caneta que, mesmo sem assinar cheques para a própria conta bancária confere poder e prestígio, é também uma forma de corrupção. É sim uma parceria com os parasitas que, sem cerimônias, se locupletam nos cofres públicos.

Não basta ser eleito pelas urnas e não roubar formalmente. É preciso bem mais do que isto. É preciso cumprir fiel e obstinadamente uma agenda efetiva de ações com senso público, como o compromisso de buscar condições de financiamento para a casa própria e eliminar essa chaga absurda dos sem-teto. Os que fazem a vida operando a gestão dos negócios da federação, estados e municípios deveriam conviver mais com o povo que é obrigado a morar embaixo da ponte.

Em tempo:

Rejaniel Jesus Silva Santos. Esse é o nome do homem que encontrou dinheiro na rua e o devolveu ao dono, o proprietário de um restaurante que havia sido assaltado.

(texto publicado originalmente na Edição Noite do Estadão no iPad no dia 9/09 e atualizado aqui no Blog da Garoa às 13h do dia 10/07)

 

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