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O Brasil não conhece o Brasil. Ou se faz de bobo…

Pablo Pereira

21 Junho 2013 | 13h39

Uma letra de música, cantada há muitos anos por Elis Regina, diz que o Brasil não conhece o Brasil. Verdade. Não conhece. O Brasil não é uma coisa única, um bloco.  Um país é composto de grupos sociais com desejos e demandas muito diferentes e, às vezes, unido somente pelo idioma e pela força da lei.

Mas tem muita gente que “conhece”. E se faz de bobo. Muitos desses “sabidos” usam as estruturas democráticas para viver com sombra e água fresca, para se dar bem – e dane-se o resto. Neste grupo estão endinheirados, intelectuais, artistas oportunistas, políticos. A imprensa, por sua vez, não escapa muito desse ambiente.

A imprensa brasileira é livre desde o fim dos famigerados Atos Institucionais da ditadura. Mas, de uma forma geral, é oficialista. Cobre muito quem governa e pouco quem é governado. E se limita a reproduzir um descolamento existente entre o representante e o representado.

Nestas semanas de manifestações nas ruas, que espalharam descontentamento pelas maiores cidades, chegando a um milhão de pessoas na quinta-feira, segundo os cálculos do Estadão, o rumor das ruas encucou muita gente. Analistas, especialistas, sociólogos, termômetros dos comportamentos de massa,  jornalistas, se confessaram perplexos.

Mas hoje vem, com sotaque inglês, como no verso da Elis, o editorial do The New York Times para dizer: nada disso deveria ser surpresa. As ruas cheias, o rancor que aparece nos confrontos, o descontentamento que leva gente de escritórios às manifestações,  nada têm de estranho. E não é só o dono da caneta estrangeira que vê isso.

Basta perambular por São Paulo, rodar na Brasilândia, ir a Parelheiros, andar no Capão Redondo, Campo Limpo, Taboão da Serra – escolha aí um roteiro para encontrar um enorme rol de carências, abandonos e desrespeitos! Ou ainda viajar um pouquinho ao Mato Grosso do Sul (onde ainda se mata índio por terra), ao Piauí (onde não se tem médicos nas pequenas cidades), ao Acre (onde se trata haitianos como bicho) – ou ao Rio, onde aquelas vergonhosas aglomerações de pobreza foram glamourizadas, viraram ponto turístico, cenários de novela, as favelas!

Só não entende o que está acontecendo no Brasil quem vive em palácios, longe do mundo real, e quem acha que colocar 30 milhões no consumo é suficiente. Ou quem acha que ser paulista, o Estado mais rico da federação, é troféu. É gente que vive num Brasil desconhecido, uma Valhala que só dizia sim!

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