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No caso do sopão, o Tutty está certo!

Pablo Pereira

03 Julho 2012 | 09h35

A capacidade do administrador público de São Paulo produzir inutilidades, quando deveria estar pensando em soluções efetivas para as mazelas urbanas, é impressionante.

Vejam agora a tentativa de proibir a distribuição gratuita de sopão para pessoas necessitadas. Bem no meio de uma grave crise de segurança pública, com os paulistanos se sentindo ameaçados até dentro de casa, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana tem a “brilhante” iniciativa de tentar impedir que quase 50 entidades sociais da cidade alimentem voluntariamente pessoas que precisam de ajuda para o mais elementar direito humano, o de comer.

Em vez de melhorar os serviços da Prefeitura para atrair as pessoas para seus programas de assistência, o poder público municipal faz outra coisa: quer punir quem faz caridade. A preocupação da turma definitivamente não está no drama das pessoas que precisam de auxílio. Estão preocupados é com o marketing da administração, afinal, estamos à beira de uma eleição. É aquela velha máxima da Lei Ricupero: o que é bom a gente mostra, o que não é, esconde! Para os idealizadores das medidas “higienizadoras” das ruas, o problema não está na existência do necessitado; está na presença dele em público.

Mas, pensando bem, essa “criatividade” toda demonstrada na proposta de impedir o sopão nas ruas até que faz sentido. Bate com a história recente da administração paulistana. Há anos a cidade convive com a ineficiência do setor público no drama do crack na região central. A administrador público permitiu que a praga da pedra de cocaína se transformasse em um problema social que hoje atinge alguns milhares de dependentes químicos.

Essa omissão criou a famigerada Cracolândia. Só se movimentou em operações policiais e de assistência social quando foi pressionada, no final do ano passado, pela ideia do Palácio do Planalto – muito atrasada, diga-se, e preparando terreno para uma investida eleitoral – de lançar um programa nacional contra a droga.

Portanto, a posição de “esconder” as filas de famintos de rua nos finais de tarde em abrigos da Prefeitura é coerente. Incapazes de criar efetivas alternativas de convencimento para reais mudanças na vida dessas pessoas, tratemos de encher os abrigos. Tudo a ver com a política exercida nos últimos anos. Já houve na cidade até um momento (quem não se lembra?) no qual se teve a “ilustrada” iniciativa de colocar pedras sob viadutos para impedir o uso dos locais como dormitório por moradores de rua.

O genial Tutty Vasquez, em sua verve habitual no estadão.com.br, dá, afinal, o tom a esse recorrente tema paulistano. Explica o humorista: “O que o prefeito quer proibir é o amor ao próximo desordenado praticado por bandos de voluntários não governamentais fora das tendas oficiais de convivência social.”

O Tutty está certo!

 .

(texto publicado no dia 29/6 no Estadão Noite no iPad)

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