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Forca, cutelo ou liberdade

Pablo Pereira

16 Novembro 2009 | 23h02

A capela dos Aflitos, escondida numa travessa da Rua dos Estudantes, na Liberdade, resiste desde a década de 1770, quando surgiu o cemitério para escravos e banidos. Ela, às vezes, é confundida com a Igreja das Almas, que fica na esquida da Estudantes com Avenida da Liberdade, outro prédio, construído um século depois. Na capela dos Aflitos são rezadas missas todas as segundas-feiras, às 15h, e uma parte de seus fiéis cultua o santo popular Chaguinhas, o cabo Francisco José das Chagas, condenado à forca pelo Império por ter participado de uma greve em Santos em 1821, tema de post do dia 12.

Em 1935, o historiador Nuto Sant’Anna publicou texto no O Estado de S.Paulo no qual tratava dessa história obscura da cidade. Nuto Sant’Anna diz que um historiador havia encontrado documentação que esclarecia parte do episódio, que muito tinha de lenda. Mas a principal novidade da pesquisa era a data dos fatos: o enforcamento, segundo ele, deu-se em 20 de setembro de 1821, e não em 1822, como se pensava. Nuto Sant’Anna relata também detalhes dos custos da operação de enforcamento, com informação até sobre o valor cobrado pelo barbeiro que afiou o cutelo usado para decepar cabeças dos condenados após a execução. Leia aqui o texto de 1935.

A informação de que o atual nome do bairro advém dos gritos de “liberdade, liberdade”, que teriam ocorrido no dia do enforcamento de Chaguinhas, é detalhe que intriga observadores. Há literatura sobre isso. O livro São Paulo de Outrora, de Paulo Cursino de Moura, famoso memorialista paulistano, faz referência à reação popular. Mas há também estudiosos que narram essa versão como lenda. E creditam o nome do bairro a um aspecto mais amplo da forte luta política que se travava no país à época, inspirada nos ideais da Revolução Francesa. O clima de conspirações, intrigas e condenações à morte era bem real, como nos mostra, por exemplo, Um Estadista do Império, bíblia da história daquele período, escrita por Joaquim Nabuco como biografia do pai, Nabuco de Araújo. O Estadista é um documento do Brasil de então. À pág. 1024 (segundo volume, Topbooks), Nabuco refere-se a punições com enforcamentos de julgados por crime ocorrido em 1867.

O que não deixa dúvidas é que “liberdade” era a palavra da moda nos círculos de contestação daqueles dias e carregava forte teor ideológico. Observadores daquele tempo, como o jornalista Levino Ponciano, autor do livro Sao Paulo, 450 anos, 450 Bairros (Editora Senac), sustentam que “Liberdade” também foi nome dado a um chafariz no Largo de São Francisco, ali perto do Campo da Forca, como era conhecida a área da atual Praça da Liberdade. O que está também documentado é que esse mesmo nome foi depois adotado pela Câmara do município para uma rua e, pelo tempo, consagrado nome do bairro. Como é a curiosidade do historiador que dá vida ao passado, essa quadra da história da cidade ainda aguarda paciente pelo elixir revelador da pesquisa criteriosa. Com a palavra, a academia.

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