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Em livro, sociólogo diz que o Brasil aniquilou a política

Pablo Pereira

05 Abril 2017 | 19h53

À guisa de olhar as mudanças do Brasil nos últimos 30 anos, sob diversos aspectos, o sociólogo e professor José de Souza Martins faz uma dura reflexão no livro “O Brasil  no Contexto 1987-2017”, da Editora Contexto. O artigo se chama Sociedade brasileira. Ele desce o porrete. O livro contém ainda textos de outros autores sobre Jornalismo, Novas Mídias, Alfabetização e letramento, Violência, Negros, Mulheres, Esporte e Economia, entre outros, sempre na perspectiva da transformação brasileira no período.

“Em 1987, o Brasil ainda acordava da longa noite ditatorial”, escreve Leandro Karnal no último dos textos das 214 páginas. A organização dos 18 autores e seus pensamentos é do historiador e professor Jaime Pinsky. Trata-se de analisar um país que sofreu uma mudança acelerada, diz o organizador, algumas muito comemoradas, como é o caso de temas da vida cotidiana das mulheres (pátrio poder, adultério, violência doméstica) e da tecnologia. “Há 30 anos, as pessoas não se correspondiam por e-mail, WhatsApp ou Facebook”, escreve Pinsky.

O conjunto das ideias da publicação ajuda a entender um país no qual mudanças aconteceram justamente no tempo da vida da Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães, que o Congresso escreveu apoiado em intenso processo de mobilização política pós-ditadura.

Daquele momento brasileiro de transição saiu uma Constituição de “um povo órfão”, resume Souza Martins. Aí vem uma paulada. Para ele, “a Constituição consagrou uma sociedade incapaz de sustentar a legalidade de uma ordem social e política voltada para a superação de suas condições com base em valores democráticos”. E conclui que a Carta “legitimou uma sociedade de nichos reivindicantes de natureza corporativa”. E vai explicando: “Ainda que reivindicações legítimas no conteúdo, descabidas na forma e nos meios, baseada no pressuposto equivocado de que revolução social e democrática se faz pela marginalização e exclusão dos supostamente vencidos. Mais vingança do que superação”.


Para Souza Martins, “nesses 30 anos, o Brasil aniquilou a política”.

O pensador ilumina também uma cena perturbadora. No atual ambiente confuso das relações sociais, políticas e econômicas em crise, quem estranha o florescimento de atitudes autoritárias e preconceituosas cotidianas – de pessoas ou de grupos, sempre condenáveis – certamente não se deu conta de um DNA trazido à luz pelo texto do professor. “A reação contra a ditadura não foi reação pela democracia, mas difusão do direito de ser ditatorial e intolerante como ela foi –  a ‘democratização’ do mandonismo”.

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