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Debate paulistano: dar descarga no número um ou no número dois?

Pablo Pereira

30 Janeiro 2015 | 12h44

Milhões de cidadãos paulistanos, contribuintes arrochados de casa em casa pela cobrança de IPVA, IPTU, ISS, Cide, IR, INSS, tarifa de luz, ICMS – além da chuva de radares nas ruas, dos assaltantes, das árvores podres, dos black blocs -, vivem agora sob a ameaça da falta de água, mesmo tendo pago regiamente as taxas da Sabesp. Em dias tão desoladores, é bom dar uma lida principalmente no capítulo “Lugares da sociabilidade escrava: bicas e chafarizes”, da historiadora Maria Helena P. T. Machado, no volume 2 de História da Cidade de São Paulo – a cidade no império  1823 – 1889.

É uma maravilha!

Está lá. A história da seca de 1875, origem do famigerado Sistema Cantareira, fundado em 1877, quando a turma ficou sem água e uma canalização salvou a cidade. Naquele tempo, a população vivia das bicas e chafarizes.

Havia chafariz do Chá, da Pólvora, do Miguel Carlos, dos Quatro-Cantos, a bica do Acu, o tanque do Zunega, e o chafariz do Piques.  “(…) aos chafarizes acorriam os escravos, forros e os pobres em geral, produzindo, em seus entornos, uma sociabilidade menos vigiada (…) sobretudo em épocas de seca, como a de 1875, quando a rotina de munir as residências de água tornou-se tarefa quase impossível”, escreve a historiadora.

Bom, em se sabendo que na metade do século 19, quando a cidade tinha não mais do que 30 mil habitantes (em 1854 havia 23.834 moradores, 7.068 deles eram escravos), já havia preocupação com secas por aqui, que prejudicavam o abastecimento do que a escritora chama de “precioso líquido” para “lavar a roupa, dessedentar as bestas que atravessavam a cidade”, matuto de 2015 fica pensando como, passados 160 anos e com pra lá de 11 milhões de pessoas bebendo e se banhando, os fornecedores da água encanada – e os governantes que os chefiam – não enxergaram o perigo da escassez rondando as torneiras de todo esse povo?

Pode isso?

Pode, claro. Tanto pode que hoje, aos milhões dos sem-bicas esfolados por impostos resta se sociabilizar, como os escravos dos 1800, em torno de canecos, baldes e cisternas. E ali discutir, terrível dilema, o que fazer – e como fazer – com o pipi da madrugada.

Não há outro assunto na cidade!

O momento nem é de procurar identificar o responsável pelo caos da falta de planejamento e o desgoverno na crise hídrica do estado (que, certamente, não é o São Pedro).

Na verdade, a grande preocupação do povo nestes dias de janeiro na maior cidade do país, capital do estado mais rico da federação, é a seguinte: vamos dar a descarga no número um ou no número dois?

Cadê Antonio Prado e Washington Luís? Cadê o Arthur Neiva? E o dr. Geraldo (Geraldo de Paula Souza,  claro)?

Como não temos mais rábulas como Xavier da Silveira e Luís Gama para enfrentar poderosos na Justiça e não podemos nem contar com o juiz Moro ou com o Joaquim Barbosa (eles não são de São Paulo), parece mesmo que vamos voltar ao mundo dos penicos e comadres. Tempos do escravo Piteco, o desastrado limpador de latrinas da cidade.

 

 

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