Casarão da Serra Negra, do Século 18, ameaçado de desaparecer no interior do Piauí
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Casarão da Serra Negra, do Século 18, ameaçado de desaparecer no interior do Piauí

Pablo Pereira

30 Junho 2013 | 15h43

Um tiro de bacamarte, disparado dentro da casa do padre de Oeiras, no sertão do Piauí, matou Antônio Pereira Nunes no dia 13 de setembro de 1803. Mais de dois séculos depois, documentos com a descrição da hora e local desse distante assassinato servem hoje de referência na pesquisa histórica sobre uma polêmica figura do passado brasileiro, um dos mais temidos coronéis nordestinos. É Luís Carlos Pereira de Abreu Bacelar, senhor de escravos do Século 18, líder político e militar do Brasil-Colônia, dono de uma das principais fazendas de escravos da época, inimigo do morto e que teria sido um dos mandantes do crime.

Localizada no município de Santa Cruz dos Milagre, vizinha de Oeiras, a fazenda Serra Negra, propriedade que pertenceu a Luís Carlos, ainda hoje mantém em pé o casarão do misterioso coronel, que aparece em documentos da colonização portuguesa existentes até na Torre do Tombo, em Lisboa.

Dias atrás, rodando pelo interior daquele estado, encontrei um pedaço abandonado da rica história da ocupação brasileira dos anos 1700/1800.

Deteriorada pelo tempo e pela falta de conservação, a construção de 1766, (abaixo, em fotos de Tiago Queiroz/Estadão) corre risco de, como o próprio Luís Carlos, desaparecer misteriosamente.

Fotos: Tiago Queiroz/Estadão

Conhecido também como Luís Carlos da Serra Negra, o fazendeiro, descendente de portugueses, condecorado pela Coroa de Lisboa, e membro de junta governativa de tempos nos quais o Piauí ainda era do Maranhão, o coronel era temido por seus métodos feudais.

Escravagista, guerreiro, mandou erguer em sua fazenda um casarão de 438 metros quadrados, que foi tombado por decreto estadual em 2006. Mesmo protegida no papel, a casa está ameaçada de perder partes, e serve de habitação para calangos – e fantasmas. O próprio dono virou lenda que envolve rituais macabros, maldade e mistério – seu corpo jamais foi encontrado após a morte, em 1811.

Mistérios

Hoje pertencente ao grupo empresarial Edson Queiroz, de Fortaleza, o casarão de Luís Carlos é parte de histórias de guerras e de torturas que até hoje arrepiam a vizinhança.

“Eu não fico aí dentro”, afirmou dias atrás um funcionário da prefeitura de Santa Cruz dos Milagres ao visitar a casa. “Aí tem fantasma dos negros que foram torturados”, completou. Rezam as lendas locais que Luís Carlos era cruel e sanguinário.Torturava escravos, dava inimigos para onças comerem e mantinha até um poço no qual desovava desafetos.

Para o arqueólogo Abrahão Sanderson Nunes Fernandes da Silva, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), que estuda o local, para além de ser origem de diversas lendas sobre Luís Carlos, o casarão tem relevância histórica.

Com um projeto de estudo arqueológico que deve se prolongar por mais quatro anos sobre o passado da Serra Negra, Abrahão acredita que os indícios já encontrados na pesquisa no local e documentos sobre a propriedade apontam para uma construção do Século 18 que pode revelar mais detalhes de como foi a ocupação do interior brasileiro na época. “É importante preservar aquele sítio histórico”, defendeu.

“Nós estamos avaliando informações que podem indicar ter havido ali também uma propriedade com fortificações”, disse o arqueólogo. Segundo ele, a Serra Negra conserva ainda muros e construções que podem ir além da comprovação da existência escravos e da moradia de Luís Carlos.

Há características de paredes de instalações “fortificadas”, construídas para enfrentar o clima de hostilidades e resistência a invasores da região em tempos nos quais disputas de territórios – e questões pessoais- eram resolvidas na bala, como ocorreu com o homem assassinado às 22h30 dentro da casa do vigário.

Diante do casarão (acima), do outro lado da estrada de terra bem cuidada da fazenda, ruínas de pedra são vistas pelo povo local como um antigo curral de criação de onças, bicho que até hoje é visto nas matas daquela região do Piauí. De acordo com relatos orais, o dono da fazenda criava ali animais selvagens para intimidar eventuais levantes de escravos rebeldes e punir condenados.

O professor da UFPI, no entanto, estuda as paredes com outros olhos. Seriam fortificações para garantir segurança contra eventuais ataques à propriedade. Há documentos que demonstram que Luís Carlos mantinha ali dezenas de guerreiros fortemente armados.

O Grupo Edson Queiroz, de Fortaleza, hoje dono do lugar, não pode interferir no prédio por determinação do processo de preservação, e não comenta o assunto.

O casarão da Serra Negra tem paredes de quase um metro de largura e há madeiramento de telhado de carnaúba, uma característica das construções da época. Para autoridades de Santa Cruz dos Milagres, a recuperação do casarão seria uma benção para o turismo local. É um sonho deles transformarem a Serra Negra em museu e fonte de receita da Prefeitura, aproveitando o potencial de atração da história intrigante do coronel Luís Carlos.

Sobre ele pairam também histórias de assombração de um tempo de forte presença da Inquisição nas colônias portuguesas. Na casa da Serra Negra há uma capela dedicada a uma santa, que teria sido trazida de Portugal, e que se transformou em Santuário de Santana, até hoje cultuada no casarão.

Contam as lendas regionais, no entanto, que o próprio Luís Carlos tinha pacto com o demônio. E que na propriedade teriam ocorrido rituais de bruxaria.

Quando morreu, assassinado em uma emboscada, como teria ocorrido com seu desafeto em Oeiras, o corpo do coronel sumiu durante o transporte para o enterro. Teria sido levado por adeptos de uma seita secreta que abordaram os escravos que o levavam em uma rede pela estrada. Jamais foi encontrada a sepultura de Luís Carlos.

Sítio rupestre

Entregue aos cuidados da Fundac, órgão estadual de conservação do Piauí, a Serra Negra é, segundo o arqueólogo da UFPI, parte de um conjunto de patrimônio que reúne ainda pelo menos duas outras relíquias bem mais antigas do que a história de lutas e mistérios do coronel. Há pelo menos dois sítios arqueológicos com pinturas rupestres na área, identificados pelos especialistas. E também cobiçados como fonte de renda municipal.

A cerca de 3 quilômetros da casa de Luís Carlos, a Pedra do Letreiro é um desses tesouros esquecidos. Uma enorme pedra exibe afrescos em tons vermelho ali deixados por assentamentos humanos de quando a região era ocupada na pré-história.

“É um rico conjunto de sítios que revelam momentos diferentes de ocupação humana naquela região”, afirmou o arqueólogo. A Pedra do Letreiro também é um lugar coberto de matagal, abandonado ao gado e aos pequenos lagartos.

O Piauí é pontilhado de descobertas da presença humana pré-histórica, muitas delas em perfeito estado de preservação. No Parque Nacional Serra da Capivara, a 530 quilômetros da capital, Teresina, ao norte da fazenda Serra Negra, área reconhecida como patrimônio da humanidade, estão as principais descobertas reconhecidas como patrimônio da humanidade pela Unesco desde 1991.

.

.

 

Descendente de Luís Carlos quer preservar memória do coronel

Ele é descendente do coronel Luís Carlos Pereira de Abreu Bacelar, também conhecido como Luís Carlos da Serra Negra, temido líder militar e senhor de escravos do Piauí no Século 18. O professor Lossian Barbosa Bacelar Miranda vive em Timon, município do Maranhão, vizinho da capital do Piauí, Teresina, onde leciona matemática no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI), e estuda o antepassado e luta para preservar a história da família.

Miranda pesquisa atualmente documentos sobre o testamento do coronel Luís Carlos e defende a preservação do casarão abandonado e ameaçado de cair na fazenda Serra Negra.

Com data presumida de 1766, conforme inscrição em pedra encontrada no local, o casarão ainda assusta moradores locais acostumados a ouvir relatos de rituais satânicos misturados com a presença de uma santa, Santana, que teria sido trazida de Portugal nos tempos da Inquisição, no Século 18.

“É uma loucura não preservá-la e, estupidez, não perceber que aquilo é um bilhete premiado da Mega-Sena acumulada”, afirmou Lossian Bacelar Miranda ao Estado, em entrevista concedida por e-mail. Leia trecho da entrevista, feita por e-mail.

Qual seu parentesco com Luís Carlos da Serra Negra?

Meu bisavô Luís de Abreu Bacelar, que era neto de Torcato Luís Pereira de Abreu Bacelar, dizia ser bisneto de Luís Carlos. A informação mais antiga que tenho de Torcato é o nascimento de um filho dele em 13/12/1829.

Relatos orais daquela região do Piauí contam sobre torturas de escravos na fazenda do coronel. Há registros escritos desses fatos?

Nas fontes primárias nunca li qualquer relato sobre torturas. Alguns escravos de Luís Carlos eram seus companheiros de armas. Como jovem capitão das milícias foi preso em São Luís do Maranhão junto com alguns deles. Um escravo amigo de Luís Carlos, enviado por sua mãe Arcângela Úrsula de Castelo Branco, morreu nas mãos dos soldados do governador. O único registro concreto de valentia de Luís Carlos, registrado pelo Governador D. João de Amorim Pereira, foi ter prendido alguém que surrou um de seus escravos. O Regente Dom João legitimou três filhos que Luís Carlos teve com a mestiça Narcisa Pereira e, ao falecer, Luís Carlos deixou testamento igualitário entre eles e os dois outros filhos nobres do casamento que teve com Luzia Perpétua Carneiro de Souto Maior Bacelar.

Havia mesmo a criação de onças na propriedade?

Não sei. Minha mãe viveu lá na década de 1930 e não dá notícias de onças. Nos fundos do quintal há uma espécie de “gamela de pedra”. Dizem que era para as onças beberem. Não li nenhum relato escrito. Lá foi um quartel e ao mesmo tempo, casa de Luís Carlos, o qual era, literalmente, um autêntico senhor feudal.

Como morreu o coronel Luís Carlos?

O único documento que li sobre a morte dele foi um ofício lacônico de natureza militar, dizendo que o mesmo havia morrido na Serra Negra em 1811. Se o Molina fizesse uma perícia nos livros da Capitania do Piauí relativos ao período de sua morte, desconfio que ele acharia coisas acerca das quais eu só pude desconfiar.

Por que houve a “demonização” da figura de Luís Carlos?

Luís Carlos foi um desaparecido político. Foi o homem que libertou o Piauí do Estado do Maranhão em 1811, tendo sido o seu primeiro governante, de fato e de direito. Seus filhos naturais foram perseguidos e, alguns, mortos. Seu testamento foi anulado e, o seu inventário, desfeito. O sistema escravocrata precisava demonizá-lo. Foi a “Maldição de Cam” do meio norte brasileiro. A verdade sobre Luís Carlos e seus descendentes naturais aparecerá agora. É uma história heroica, mas com sofrimento excessivo. Fica muito triste. Espero que a Comissão da Verdade não permita repetição do que aconteceu a Luís Carlos e seus descendentes.

O senhor tem detalhes (documentos) sobre a presença da Inquisição no Piauí?

Eu não, mas Luiz Mott, sim: MOTT, Luiz. Transgressão na calada da noite: um sabá de feiticeiras e demônios no Piauí colonial. Disponível aqui.

E qual sua opinião sobre a preservação do casarão da fazenda Serra Negra?

O padre Miguel de Carvalho em Descrição do Sertão do Piauí (1697) diz: “XVb – Riacho Negro: Corre do sul para o norte; entra no São Nicolau. 01 – Tem uma só fazenda, chama-se a Serra Negra; está nela Rodrigo da Costa com dois negros”. No livro de batismos de Oeiras há, em 1734, registros de batismos de escravos de José Pereira de Abreu Bacelar, irmão do pai de Luís Carlos. Minhas pesquisas indicam que este José Pereira, cavaleiro da Ordem de Cristo e o mesmo citado por Mott, veio do eixo Rio São Paulo degredado devido a judaísmo de sua jovem esposa Brites da Costa. Jorge Velho deve ter morado na Serra Negra, a qual guarda um pouco da história do Brasil inteiro, inclusive dos judeus. É uma loucura não preservá-la e, estupidez, não perceber que aquilo é um bilhete premiado da Mega-Sena acumulada.

.

Mais conteúdo sobre:

casarãoHistória