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A voz do gigante, a Situação e a Oposição

Pablo Pereira

25 Junho 2013 | 01h38

O recado das milhares de pessoas que foram às ruas na semana passada foi dado. Em muitas questões, a paciência acabou – e o bicho pegou! A partir do Movimento do Passe Livre, que conseguiu nada mais nada menos do que barrar um aumento da passagem de ônibus e metrô em 15 dias de ocupação das ruas, muitos grupos de descontentes com o serviço público se encorajam para defender seus interesses. E não se pode mais dizer, pelo menos por enquanto, que o povo brasileiro é cordeirinho, submisso. O buraco entre representantes e representados se revelou enorme, virou fosso, e dele emergiu um gigante meio atordoado.

O efeito mais claro do tamanho do problema é o que aconteceu nesta segunda-feira em Brasília. A presidenta da República, Dilma Rousseff, foi forçada pelas manifestações a chamar governadores e prefeitos para procurar uma saída para o brete no qual se meteram, todos, e tentar acalmar a voz rouca das ruas. E, rapidamente, encontrou R$ 50 bilhões para gastar.

Essa conta apresentada pela onda de protestos – que ecoa no grito “o gigante acordou” – , no entanto, não é só de quem está confortavelmente em berço esplendido, em posto de comando federal. Boa parte dessa insatisfação, que até derivou para a violência é, sim, da responsabilidade também de muita gente da atual Oposição.

Num sistema democrático, escolhe-se o ocupante do cargo público que, eleito, governa. É Situação. Quem não foi escolhido na urna vai para a Oposição. Uma das tarefas dessa Oposição é fiscalizar, organizar forças políticas para tentar oferecer seu projeto de sociedade na próxima eleição. Mas o que fez a Oposição brasileira quando o PT venceu eleições nacionais e, no poder, se fortaleceu?

Liderada pelo PSDB, essa Oposição não soube como se comportar diante do sucesso eleitoral do adversário, descolou-se da massa que os elegeu em dois mandatos de Fernando Henrique (1994 e 1998), encolheu-se, e fracassou como alternativa de poder. E o PT, desta vez com o PMDB, ganhou de novo.

Além dessa incapacidade em canalizar os descontentes, os tucanos enfrentam ainda outra contradição: também são Situação – têm poderosas máquinas, canetas e orçamentos. Cavalgam, principalmente, os contribuintes estaduais paulistas e mineiros. Mas nem assim encontram uma saída para o crescente descolamento entre governo e cidadania.

E milhares e milhares estão politicamente sem pai nem mãe, com ódio de partidos.

O próprio Fernando Henrique Cardoso cansou de alertar seus companheiros para isso. Disse inúmeras vezes que o PSDB precisava reencontrar-se com o povo. Mas…

Carona

É lícito que a Oposição ao governo federal venha tentar pegar uma carona no desgaste do Planalto.

Afinal, a turma de Dilma/Lula não nasceu ontem. Está assustada, mas está nisso até o pescoço e corre para evitar futuros danos à candidatura dela em 2014. Com o capital político se desfazendo nos últimos dias, como apontam as pesquisas de opinião, Dilma tenta botar a cabeça para fora do barral no qual a empáfia da aliança PT/PMDB, alimentada pelo inclusão de 40 milhões de pobres no consumo, se atolava até a semana passada sem perceber que sua “obra” era insuficiente.

Como ocorreu no início dos anos 50, depois que Vargas bombou o consumo com a legislação trabalhista, a CLT, e o pessoal da chamada classe média gostou muito do novo ambiente, veio o natural repique: quem não tinha e agora tem, quer mais e mais.

Em 1954, como hoje, com o país sem capacidade de manter o crescimento sustentado da economia, explodiu a frustração. E a “conquista” de Vargas começou a desandar. Foi só colocar na sopa quente da insatisfação popular ingredientes tipo a indignação contra a desmedida e endêmica vocação de alguns setores de se apropriarem do que é público sem nenhuma vergonha, a velha corrupção, e acrescentar uma pitada de reação de jagunços raivosos e desastrados – e deu no que deu.

Como já disse, é lícito, na atual conjuntura, a Oposição (o PSDB) tentar esfolar politicamente a Situação (o PT). O próprio PT cansou de fazer isso com FHC.

Mas é preciso lembrar também que, na excitação exagerada das massas nas ruas, a Oposição tem sim sua parcela de culpa no cartório.

Além de não conseguir se articular como alternativa de projeto de país, o PSDB, do pré-candidato Aécio Neves, de José Serra, de Geraldo Alckmin, é governo em São Paulo, palco de muitos quebra-quebras, há duas décadas, prazo mais do que suficiente para executar um largo plano, por exemplo, de obras de mobilidade urbana, ou seja, túneis e trilhos de metrô e trens da CPTM.

Tempo suficiente também para melhorar a saúde, a educação. Não esse serviço medido com a régua dos governantes, cuja propaganda sempre diz que está tudo ótimo. Mas aquele dimensionado pelo metro da necessidade do povo, aquele que leva gente às ruas.

É bom, portanto, que lulistas, dilmista, serristas e aecistas fiquem espertos. Se nada de objetivo for feito nos próximos meses, se a enrolação nossa de cada dia do Brasil prosperar mais uma vez, com propostas de comissões e pactos vazios, pode ser que o gigante – que hoje grita “sem partidos, sem partidos” – concebido no casamento da inoperância da Situação com a incompetência da Oposição, nem espere pelas urnas para se apresentar bem mais perturbador.

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