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A amizade entre palavras, linhas e pontos

Pablo Pereira

26 Dezembro 2011 | 21h56

Outro dia, início de dezembro, vi andando pela redação de O Estado de S.Paulo um ícone do silêncio, um homem que fala pelo que escreve – e que escrita! Era Luís Fernando Veríssimo. Portador do DNA da literatura, é um abençoado pelo humor e pela síntese, divindades que guiaram também os passos do poeta Mário Quintana, outro desses gnomos sulistas dos livros.

Veríssimo é um Quintana nos cartuns. O poeta adorava as palavras no fundo branco dos livros. Amava-as tanto que para não alterar-lhes o sentido no decorrer do tempo foi capaz até de admitir acento gráfico inexistente no original do próprio nome. Talvez por isso implicasse com histórias em quadrinhos, as primas das tiras –  forma de criação que Veríssimo gosta de usar para dizer mais com menos.  Com linhas e pontos, Veríssimo subverte a expressão (e o poeta).

Quem sabe se Quintana tivesse tido mais tempo (morreu em 1994) pudesse “sirrir”, como a Gabriela do poema Filó (“a gente se agachava a sirri que não parava mais”), apreciando a verve no traço único do filho de Érico. Ah, o Érico. Sim, aquele que além de adorar as tão adoradas palavras, certa vez salvou o poeta com a generosidade que só as grandes amizades são capazes de acalentar.

Érico, de extensa prosa, resumiu num bilhete com três palavras (a última uma aglutinação), vírgula e ponto final o aviso ao desempregado Mário dos anos 30 sobre as garantias para que deixasse o Rio de Janeiro e volvesse ao Rio Grande.

No sul, Quintana reencontraria, na editora do amigo, abrigo intelectual e dinheiro para viver – sinteticamente. Em livro de Néa Castro, Mário lembra que, no áureo tempo das longas cartas, o texto do pai de Luís Fernando cravava:  “Podes vir, mermão.”

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