Dívidas e reverências
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Dívidas e reverências

Pablo Pereira

19 Novembro 2009 | 23h12

 São Paulo adotou o dia 20 de novembro como feriado em homenagem à gente que lutou pelas liberdades em séculos de injustiça, quando humanos eram escravizados por serem negros ou índios. É a data dedicada a Zumbi dos Palmares, líder quilombola exterminado nessa data em 1695 pelo paulista Domingos Jorge Velho em campanha contra índios e escravos em terras do Nordeste. 

Há trabalhos acadêmicos muito bons sobre esse período terrível da história de São Paulo. E há livros reveladores das intolerâncias vividas país a fora. Lembro aqui de dois ensaios que abrem o livro História de São Paulo, a cidade no Império (Paz e Terra, volume 2) e são uma aula sobre a escravatura.

O primeiro, de Alzira Lobo de Arruda Campos, trata de um detalhe de alta sensibilidade. Mostra como a sociedade escravocrata reagia a crimes nos quais se envolviam seus escravos. Os brancos proprietários de negros os defendiam da Justiça branca, mas não era porque acreditassem na inocência deles, mas sim para que seus patrimônios não fossem desvalorizados.

No segundo texto, de Maria Helena Machado, na mesma obra, mais pérolas daquela época. Ricas informações estatísticas mostram que em 1854 a cidade chegou a ter 30% de sua população composta por escravos. “A Freguesia da Sé, que era o local aonde estavam as famílias mais ricas, concentrava, em 1836, o maior número de escravos, 858 (370 crioulos e 488 africanos)”, diz a autora, citando Daniel Pedro Müller (Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo), editado em 1978.

Mas o que a mim tem chamado a atenção há algum tempo ao ler sobre o tema, além obviamente das barbaridades perpetradas, é a presença naqueles dias de um personagem único da cidade: Luís Gama. Outro dia, encontrei num sebo do Viaduto Nove de Julho, quase esquina com Rua da Consolação, uma edição do popular Trovas Burlescas, livro de poemas de Luís Gama, cujo título inteiro é Primeiras Trovas Burlescas do Getulino. Um achado.

Filho de mãe negra com pai branco, Luís Gama teria sido vendido como escravo pelo próprio pai, como pagamento de dívidas de jogo na Bahia, e mandado ao Rio. Dramático começo de vida para um adolescente. No Rio foi colocado num lote de negros vendidos a fazendeiro de São Paulo, para onde foi transportado de navio ao porto de Santos e, a pé, para Campinas.

No ensaio de Maria Helena Machado há detalhes da vida de São Paulo naqueles tempos. Ela também fala da maravilhosa superação pessoal de Luís Gama em tempos tão adversos. “De escravo doméstico a poeta, rábula, jornalista e militante político (…) Luís Gama valeu-se das relações de patronagem e proteção, que ele havia constituído em suas relações com gente branca e bem-nascida da cidade, para afrontar ao próprio modelo de branqueamento ao qual ele, mulato bem-sucedido, parecia fadado”, escreve Maria Helena Machado.

E a vida paulistana do ex-escravo, escritor e advogado, encontrou-se com a de outros abolicionistas, sendo ele elogiado por Raul Pompéia e tendo também se aproximado na empreitada da criação de jornais, como o Radical Paulistano, do Partido Radical. No Radical, fez política ao lado de Rui Barbosa.

Luís Gama morreu em 1882. “Em torno do caixão, se acotovelavam gente como Martinho Prado e Antonio Carlos, ladeados de escravos e forros, vestidos miseravelmente e descalços”, lembra a historiadora. Foi enterrado na rua 12, terreno 17, do então recente Cemitério da Consolação –

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 -, criado anos antes na Estrada da Consolação, área que à época era distante do Centro, caminho para Pinheiros, como relatam alguns dos observadores da geografia paulistana daqueles dias.

Luís Gama, poeta e militante antiescravagista, pode ser reverenciado na Consolação com outras pessoas de destaque em São Paulo, lembrados, por exemplo, em texto do professor

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