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Quem Faz

PABLO PEREIRA. Formado pela PUC-RS em 1986, é jornalista do Estadão desde 2007. Foi Editor Executivo de O Estado de S.Paulo, do Jornal da Tarde e do estadão.com.br. Master em Jornalismo Digital pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), é repórter especial.
quinta-feira 25/08/11 17:25

No fantástico mundo dos mapas do Google

Outro dia, subindo e descendo as cordilheiras andinas, por horas e horas, em uma viagem a la García Márquez, para o Estado, fiquei recordando de uma paixão antiga: os mapas.  Sim, os mapas. O poeta Mario Quintana gostava de dicionários. Passava horas olhando as palavras, procurando-lhes o sentido, divertindo-se ao inventar os próprios dicionários. Bom, cada um com seus problemas. Nos escritos de Quintana aprendi a ler e a gostar desses compêndios sem figuras. E combinava aquilo com o ...

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segunda-feira 22/08/11 15:18

Arquivo abre lote de documentos do DEOPS para consulta

Um lote com 11.600 fichas do DEOPS, documentos do período da ditatura militar brasileira, encontrados em Santos, está pronto para consulta pública no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Segundo assessoria do Arquivo, depois de um ano e cinco meses de preparação dos documentos, os prontuários podem, a partir de agora, servir de fonte para pesquisa.    

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quarta-feira 17/08/11 12:27

Jornalismo é difícil, mas ainda é melhor do que trabalhar

Um grande amigo, jornalista, José Roberto de Alencar, que perdi em 2007, costumava brincar com uma frase, que ele atribuía a um amigo dele, Audálio Dantas: "Fazer jornalismo é difícil, mas ainda é melhor do que trabalhar".  Lembrei do Zé Grandão, com muita saudade, de seu modo particular de viver, de ver a profissão, ao ler a coluna do colega Flavio Gomes, do dia 13. Jornalista com J grande, um apaixonado por carros, motores, piloto, Flavio fez ...

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terça-feira 16/08/11 11:18

Peru, um país de tirar o chapéu

Marcado Índio, em Lima

Rodando na semana passada pelo litoral do Peru, perto de Lima, perguntei a um nativo como era viver num lugar onde não chove. “Por aqui temos no máximo uma garoa”, disse ele, pronunciando “garua”, palavra que está na raiz da denominação dos chuviscos tão familiares, ainda nestes dias, a São Paulo.

Deve ser mesmo uma tranquilidade viver somente sob a garoa, longe dos carros boiando, sofás e geladeiras dentro d’água, gente morrendo soterrada. Em Lima, as águas não caem com força porque há o efeito do fenômeno de Humboldt (do cientista Alexander von Humboldt), uma corrente marinha que percorre a costa do Pacífico do Chile ao Equador impede a chuvarada na região.

Os peruanos, por certo, têm muitos problemas. Há cinturões de pobreza que ainda vão consumir anos para que se tenha uma igualdade a mostrar. Mas do mal das enchentes eles não sofrem.

Nos últimos anos, o país tem melhorado seus principais fundamentos da economia. Mesmo nesses tempos bicudos de agosto, a situação da economia peruana está sob controle. O PIB do vizinho andino cresce acima do PIB brasileiro. No primeiro semestre, 7,7% de crescimento. Analistas de Lima esperam chegar ao final de 2011 marcando na casa dos 6%.

Como no Brasil, o s peruanos vivem um momento de redução importante da pobreza. Surge uma nova classe média. O país está lastreado na produção mineral. O chão deles é rico. Entre os principais metais extraídos, os mais vistosos: prata e ouro. A mineração de cobre e outros materiais ajuda no equilíbrio da balança peruana.

Na viagem que fizemos, eu e o colega Epitácio Pessoa, para mostrar a mais longa linha de ônibus da América do Sul, de 5.917 quilômetros, editada no Estado e no estadão.com.brno domingo, entrevistamos o embaixador brasileiro Carlos Alfredo Lazary Teixeira sobre o momento das relações entre os dois países.

As expectativas do Itamarati são muito favoráveis. Do lado peruano, que acaba de trocar de governo, igualmente. O diplomata peruano Antonio Castillo diz que vivemos um “momento de ouro”. Nos últimos anos, capital de empresas brasileiras está aportando em terras peruanas fortemente. “Já temos um acumulado de investimentos de US$ 3 bilhões”, disse o embaixador Lazary Teixeira.

Ele faz questão de ressaltar: as empresas brasileiras estão no Peru para se tornarem parte do cotidiano andido. Devem ser transformadas em empresas peruanas. O Itamarati está certo que o capital brasileiro pode ajudar a economia peruana, e vice-versa.

Relendo escritos de Euclides da Cunha para o chanceler que deu forma a tudo isso, o Barão do Rio Branco, cujos documentos são citados no belo trabalho do historiador Leandro Tocantins sobre formação do Acre e outras cartas euclidianas do começo do Século 20, lembrei das dificuldades do escritor em suas expedições.

Não há como pensar no tema sem recorrer às façanhas desses pioneiros dos dois lados. Euclides e suas embarcações, a lancha  Cunha Gomes e o batelão Manoel Urbano, durante seu mergulho amazônico rumo aos Andes, é o que mais próximo de nós aparece.

Para além do interesse nas fronteiras, do Século 20, há o antigo interesse no ouro da Cordilheira, esse mesmo que ainda ajuda a acertar as contas por lá.

Esse interesse vem do Século 17.  Foi quando em São Paulo se chegou até a pensar em importar lhamas para transporte em minas brasileiras. Lembremo-nos: a região do Pico do Jaraguá já foi revirada por mineiros em busca de filão dourado.

Como nos lembra o mestre Sérgio Buarque de Holanda em suas pesquisas nas Atas da Câmara de São Paulo, em 1609 houve até dotação orçamentária para a compra do que à época se chamou de “carneiro peruano”. O projeto não foi adiante. Sobrou para as mulas, claro.

Se os portugueses tivessem tido sucesso na importação do camelídeo andino, talvez houvesse por aqui, em alguma cidade da trilha das minas, uma homenagem às lhamas, como aquela feita ao muar em Sorocaba.

Nessa questão das fronteiras amazônicas, concretamente, o debate tem pelo menos 170 anos. Data dos anos 40 do Século 19.  “O primeiro ato de regulamentação limítrofe entre o Brasil e o Peru data de 1841”, escreveu Leandro Tocantins, à página 327 de seu “Formação Histórica do Acre” (Volume 2), editado pela Civilização Brasileira. De um lado, o Peru olhava o Atlântico querendo ver a Europa; do outro, a barreira da Cordilheira impedia o acesso do Brasil ao Pacífico, e aos mercados da Ásia.

Então, o traço separando as duas culturas terminou por se estabelecer a partir do Tratado de Petrópolis, em 1903, quando os brasileiros negociaram o Acre com bolivianos e peruanos, episódio que marcou a diplomacia do Barão.

Ainda após essa data, segundo o historiador Leandro Tocantins no livro “Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido”, pela editora Civilização Brasileira, o explorador e escritor brasileiro avançou, a partir de 1905, pelo Rio Purus, com sua lancha Cunha Gomes, seguida do batelão Manuel Urbano, que era um barco só para suprimentos, ao encontro da comissão peruana chefiada pelo capitão-de-corveta Pedro Alexandre Buenaño.

A busca pela amizade foi, a certa altura, cultivada com um regalo peruano enviado ao brasileiro: um chapéu – como mostram originais de cartas de Euclides, citadas por Tocantins.

“Le ruego aceptar (…) el sombrero. (…) el tejido de ello es una de las industrias en mi país”, escreveu o líder peruano Buenaño a Euclides, segundo documento do Arquivo Histórico do Itamarati, também citado por Tocantins. Nem tudo nas relações dos dois foi gentileza, certamente. Os tempos eram muito mais terríveis do que se viveu nos 100 anos seguintes. Houve resistências.

Mas o gesto do negociador peruano, certamente, ajudou no ambiente do acordo de fronteiras de 1909. E faz parte do rito da integração que se estreita, agora, em 2011.

O tempo, os negócios e o bom senso ajustaram as coisas. E, agora, pode-se, finalmente, ir e vir através da enigmática Cordilheira e da portentosa amazônia, um sonho secular.

Protegido pelo seu passado inca, o Peru é um belo país. As paisagens das montanhas e vales são deslumbrantes. As estradas peruanas são de boa qualidade, com piso excelente, sinalização competente. Faltam detalhes, como a ponte do Madre de Dios, que deve estar em funcionamente em outubro. Já era mesmo hora de os brasileiros tirarem o chapéu para os andinos.

Se em Lima o sol está mais presente na moeda do que no céu – a cidade vive coberta por uma bruma e a chuva não passa de “garua”-, os peruanos compensam essa “ausência” com cordialidade. Como já demonstrou Buenaño a Euclides.

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Mercado Índio, em Lima, local de compra de artesanato/Foto:Pablo Pereira

 

 

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